Diante dos desafios globais da atualidade, como as emergências climáticas, o aumento da desigualdade e a crise dos modelos de desenvolvimento, ganha força uma pergunta essencial: que tipo de educação pode formar pessoas capazes de transformar o mundo? Em sintonia com o chamado da Laudato Si’, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) e os debates que se intensificam rumo à COP 30, a Rede Jesuíta de Educação Básica (RJE) acredita que a resposta está na formação integral, que combina excelência acadêmica, espiritualidade e compromisso com a justiça socioambiental.
Educar é também formar para a compaixão, a solidariedade e a justiça social. Para Ana Flávia Bitencourt de Andrade, orientadora de Formação Cristã do Colégio Loyola, em Belo Horizonte (MG), essa educação tem raízes espirituais profundas. “A educação que visa à excelência humana promove o desenvolvimento da pessoa numa perspectiva integral, considerando suas múltiplas dimensões e a interconexão entre elas. Nosso modelo educativo intenciona a formação de homens e mulheres com o olhar sensível às realidades que os cercam e comprometidos com a transformação delas”, analisa.
Inspirada pela espiritualidade inaciana, Ana Flávia recorda que o modelo de ser humano proposto pela educação jesuíta tem em Jesus Cristo sua referência maior: “É uma educação que propõe Cristo como modelo de vida e deseja formar pessoas equilibradas, abertas àquilo que é humano, com consciência crítica e desejo de servir.” A experiência da compaixão é central nesse processo. A educadora explica que, na tradição inaciana, a compaixão é mais do que empatia: é um sentimento que leva à ação, ao movimento, à solidariedade prática com os que sofrem. “Em um mundo marcado pelo fechamento e o individualismo, a empatia pode ser um primeiro passo. Contudo, pensando na educação jesuíta, o que mais desejamos é a formação de estudantes compassivos, isto é, capazes de abrir seus corações para serem solidários e assumirem o sofrimento dos outros”, completa.
Essa perspectiva também orienta o trabalho pedagógico no Colégio Anchieta, em Porto Alegre (RS). Para Marcio Longhi, coordenador do Serviço de Orientação Religiosa, Espiritual e de Pastoral (Sorep), a formação compassiva acontece nas experiências cotidianas e na intencionalidade dos projetos: “Seja por meio da escuta atenta a um colega em dificuldade, seja pela participação em ações solidárias junto a comunidades vulneráveis, buscamos cultivar atitudes que expressem cuidado e compromisso com o outro.”
A educação inaciana também favorece o desenvolvimento de competências espirituais e socioemocionais. Ainda que os resultados da formação humana nem sempre sejam imediatos ou mensuráveis, ele destaca a importância de acompanhar os estudantes ao longo do tempo. “A riqueza e o desafio de qualquer proposta formativa estão em nossa capacidade institucional de acompanhar os estudantes no desenvolvimento de seus projetos de vida. Isso não se dá por um único caminho, mas por muitos – desde que haja intencionalidade, capacidade organizacional institucional instalada e disposição para estar junto com nossos estudantes”, sugere.

Colégio Anchieta (RS) promove ações de voluntariado, campanha de doações e o evento Família Anchietana Solidária.
No Colégio Medianeira, em Curitiba (PR), esse compromisso ganha força no diálogo com a ecologia integral. Para Letícia Estela Cavichiolo Espindola, ex-aluna e atual responsável pelo Centro de Educação Ambiental (CEA) da escola, a educação jesuíta marcou profundamente sua trajetória. “Como estudante e como católica, fui incentivada a olhar para além de mim mesma e a cultivar um senso de responsabilidade com o outro e com a Casa Comum. A pedagogia inaciana me ensinou a buscar sempre o magis, no sentido do que nos impulsiona a servir com generosidade e consciência crítica”. O Medianeira atua na formação de lideranças socioambientais, que se baseiam no protagonismo estudantil e no cuidado com o planeta. “A formação de lideranças socioambientais nasce da análise das ações que envolvem o cuidado com a vida, a leitura crítica da realidade, e a vivência de experiências concretas em que os estudantes possam atuar em prol da coletividade. Mas, sobretudo, nasce da escuta ativa dos estudantes.”
Projetos como o Comitê para Combate das Mudanças Climáticas, o Projeto Fome de Quê e o Curso de Formação de Liderança Inaciana são exemplos de como essa escuta gera ação concreta. Além disso, os espaços educativos também expressam a espiritualidade e o cuidado com a criação, como a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Morro do Bruninho, preservada pelo Medianeira. “O Comitê, por exemplo, se originou por ação de estudantes do 7º ano, que decidiram agir no combate de mudanças climáticas, por meio do plantio de árvores nativas, feiras de trocas e na conscientização de outros estudantes. Já o Projeto Fome de Quê utiliza o óleo usado coletado pelo CEA para fabricar sabão ecológico, que depois permite a doação de cestas básicas às famílias carentes do entorno do colégio. A RPPN garante proteção legal permanente a ecossistemas locais. Essa herança no cuidado concreto com a Casa Comum me inspira e motiva a formar as novas gerações de pessoas comprometidas para os demais”, comenta Letícia.
A educação jesuíta busca, portanto, formar pessoas capazes de responder, com generosidade e discernimento, aos desafios do presente. Em tempos de crise ambiental e social, essa proposta se revela cada vez mais necessária: formar para a compaixão, a solidariedade e a justiça social é também formar para a sustentabilidade da vida em todas as suas dimensões.
A vivência dos valores jesuítas no cotidiano escolar
No Colégio Catarinense, em Florianópolis (SC), os valores da espiritualidade inaciana ganham forma concreta por meio de ações que promovem o cuidado com o outro e com a Casa Comum. Natalia dos Santos Kranz, assistente social da instituição, afirma que os estudantes são convidados a se desinstalar de seus locais identitários e olhar para contextos sociais locais que carecem de um olhar atento e cuidadoso da sociedade. Alguns dos destaques é a realização da Sopa e da Massa Solidária, que têm como objetivo arrecadar recursos e destiná-los às causas sociais e/ou a instituições que desenvolvem serviços, programas e projetos de atendimento, assessoramento, defesa e garantia de direitos ao público a que assistem. No último ano, os recursos destinados ao Centro de Educação Infantil Jardim Laranjeiras, unidade da Fundação Fé e Alegria situada no município de Palhoça, possibilitaram a melhoria na estrutura física da instituição, com a climatização e aquisição de equipamentos e utensílios para melhor atender às crianças que lá são acolhidas.
Também a Olimpíada do Colégio Catarinense é marcada não apenas pelo espírito desportivo, mas solidário. Anualmente, os alunos são convidados a engajar-se em ações solidárias que beneficiam a comunidade, sendo que, em 2024, a ação solidária arrecadou mais de 40 mil itens de higiene e limpeza e água potável, organizados pelas turmas e enviados ao Rio Grande do Sul em meio a um contexto de grande necessidade. Na edição da Olimpíada 2025, os alunos foram instigados a engajar-se na ação solidária de doação de sangue, em parceria com o Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina (Hemosc). “Isso retorna ao ambiente escolar por meio de atitudes concretas, quando observamos alunos mais atentos e sensíveis às necessidades do outro, engajados no cuidado com a Casa Comum, valorizando os relacionamentos interpessoais, preocupando-se com questões sociais que afetam a vida em sociedade. Esse despertar vivido por nossos estudantes renova nossa esperança na educação transformadora e no espírito de continuidade da nossa missão educativa”, analisa Natalia.
O impacto da justiça socioambiental na comunidade da Escola Padre Arrupe
A vivência dos valores jesuítas na Escola Padre Arrupe, em Teresina (PI), acontece de forma profundamente enraizada na realidade do entorno. Localizada em uma região marcada por desigualdades sociais e vulnerabilidades, a instituição atende cerca de 500 crianças de famílias com renda per capita de até um salário mínimo e meio. Em 2018, nasceu o Projeto Veredas, a partir de uma parceria com as três unidades da RJE em Teresina: Colégio Diocesano, Escola Santo Afonso Rodriguez (Esar) e a Escola Padre Arrupe. A proposta inicial era ampliar a sustentabilidade no processo educativo, mas, com o tempo, o projeto assumiu uma dimensão mais profunda: formar uma cultura de justiça socioambiental que envolvesse toda a comunidade escolar — estudantes, educadores, famílias e o entorno.
Hoje, o projeto integra o currículo da escola e promove práticas sustentáveis que geram impacto direto na vida das pessoas. A separação de resíduos sólidos recicláveis em casa, por exemplo, se tornou um hábito entre os estudantes. Os materiais são levados para a escola e, de lá, encaminhados a cooperativas e entidades do bairro, gerando renda e apoio para famílias em situação de vulnerabilidade. “O projeto representou uma grande oportunidade de firmar parcerias, sobretudo com coletores de materiais recicláveis de nossa região. Esse projeto evidencia alguns indicadores de que somos um centro educativo da Companhia de Jesus do século XXI: o compromisso com a cidadania global, com o cuidado com toda a criação, com a justiça, com a excelência humana e com a aprendizagem para toda a vida”, reconhece o diretor-geral, Lucas Santana.