A história da Rede Jesuíta de Educação Básica (RJE) tem sido escrita por meio de escuta, discernimento e construção coletiva. Entre os muitos que ajudaram a tecer esse caminho, o nome do Pe. Mário Sündermann, SJ, se destaca. Atual administrador provincial da Província dos Jesuítas do Brasil, ele foi um dos principais articuladores da fundação da RJE e coordenou, entre 2014 e 2017, o processo de elaboração e implementação do seu Projeto Educativo Comum (PEC).
Com vasta experiência em gestão educacional — foi diretor do Colégio Catarinense, em Florianópolis (SC), do Colégio dos Jesuítas, em Juiz de Fora (MG), e do Colégio Loyola, em Belo Horizonte (MG), além de delegado para a educação junto à Conferência de Provinciais Jesuítas da América Latina e do Caribe (Cpal), nos anos 2016 e 2017 —, Pe. Mário transformou sua trajetória em objeto de pesquisa no doutorado em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Sua tese, intitulada Projeto educativo comum e gestão colaborativa no contexto da Rede Jesuíta de Educação no Brasil, resgata a memória da RJE, analisa os processos vividos em seus primeiros anos e propõe caminhos para uma gestão colaborativa enraizada na tradição inaciana e atenta aos desafios contemporâneos. A pesquisa ganhou ainda mais visibilidade com o lançamento, em 2023, do livro Gestão Escolar em Rede: uma história da Rede Jesuíta de Educação no Brasil.
Confira a entrevista completa abaixo:
O que o motivou a transformar a história da fundação da Rede Jesuíta de Educação Básica e a implementação do Projeto Educativo Comum em objeto de sua pesquisa de doutorado?
Pesquisar a fundação da Rede Jesuíta de Educação Básica (RJE) e a implementação do Projeto Educativo Comum (PEC) surgiu da minha participação ativa nesse processo. Como religioso dedicado à Educação, busquei sistematizar essa experiência marcante, vivida por mim e por tantos jesuítas e leigos dedicados ao apostolado educativo na Companhia de Jesus. Tenho consciência de que a RJE é fruto de um sonho coletivo, de uma atuação colaborativa e resultado de momento histórico em que a Companhia de Jesus e a sociedade em geral vinham propondo o agir colaborativo e em rede como forma mais adequada para responder aos inúmeros desafios contemporâneos. O fato de estar totalmente imerso no processo de construção da RJE me fez sentir e atuar como cocriador e gestor da RJE, o que me permitiu identificar, na sua fundação, uma construção coletiva. O objetivo da pesquisa foi registrar esse processo como memória institucional e referência para educadores e gestores futuros.
Além disso, reconhecia-se a relevância de sistematizar esse processo, o que poderia contribuir para o aprimoramento da gestão inaciana, caracterizando-a como um modelo colaborativo. Havia também o interesse em aprofundar a compreensão da identidade inaciana como princípio orientador da educação básica dos jesuítas no Brasil. Ressalte-se que tal avanço foi possível devido ao envolvimento e comprometimento de diversos educadores.
A tese se propôs, portanto, a analisar de que forma o PEC, resultado de um processo coletivo, foi construído por meio do trabalho conjunto de jesuítas e leigos engajados na missão educativa, atendendo a diferentes expectativas e necessidades. O processo de elaboração do PEC, marcado pelo discernimento inaciano, configurou-se como um ambiente prático de gestão colaborativa, favorecendo a consciência de Rede, valorizando e integrando a diversidade de experiências e contextos em torno de um Projeto Educativo Comum, que pudesse contemplar e apresentar uma proposta para a educação básica dos jesuítas no Brasil.
Como o livro Gestão Escolar em Rede complementa ou atualiza os achados da tese?
O livro Gestão Escolar em Rede surge como um desdobramento natural da tese, aprofundando e atualizando os achados da pesquisa. Ambos estão intimamente entrelaçados. Penso que ele é um texto com dois eixos, um mais em perspectiva histórica (história da Educação na Companhia de Jesus, criação da RJE, construção do PEC) e outra voltada para a gestão inaciana (características e identificadores da gestão inaciana, perfil do gestor inaciano, e desafios e perspectivas para futuro). Nesse sentido, o livro segue a estrutura organizativa da tese, que, por sua vez, narra e analisa o processo de fundação da RJE e a construção do PEC, assim como apresenta os princípios e o perfil do gestor inaciano. O livro amplia o olhar para os desafios contemporâneos da gestão em rede, trazendo exemplos práticos, reflexões sobre a implementação do PEC e as adaptações necessárias diante das mudanças sociais, tecnológicas e educacionais.
O livro enfatiza a importância da formação continuada dos educadores, reconhecendo que a pesquisa e o aprofundamento acadêmico são fundamentais para a missão educativa. Ressalta-se o papel da sistematização das experiências, do registro dos processos e da disseminação de boas práticas como fatores que fortalecem a identidade institucional e fomentam a inovação. Adicionalmente, a obra atualiza o debate acerca da gestão colaborativa, evidenciando como o discernimento inaciano e a escuta ativa permanecem elementos centrais para a superação de desafios e para a construção de respostas coletivas.
A análise da experiência relatada permitiu revisitar um percurso intenso, caracterizado por desafios, oportunidades e conquistas, bem como reconhecer a contribuição de diversos atores — gestores, educadores, estudantes e famílias —no processo. O desenvolvimento desse itinerário formativo contou com a colaboração de colegas doutorandos da RJE e com a orientação qualificada do professor Dr. Rodrigo Dias, cuja acompanhamento foi fundamental tanto para o êxito da pesquisa quanto para a motivação na publicação da tese em formato de livro.
Que aprendizados o envolvimento coletivo dos educadores trouxe para a consolidação do PEC e da identidade da RJE?
A participação ativa dos educadores no processo de criação da RJE e do PEC foi fundamental para a consolidação da identidade da Rede. O envolvimento coletivo permitiu que diferentes saberes, experiências e contextos fossem integrados, gerando um sentimento de pertencimento e compromisso com a missão institucional. A escuta ampla, a partilha de sonhos e desafios, e a construção colaborativa do documento fortaleceram a coesão do grupo e a adesão afetiva e efetiva ao projeto comum.
Esse processo gerou aprendizados valiosos, como a importância do diálogo, da escuta ativa, da valorização das diferenças e da busca por consensos. A construção do PEC foi vivida como uma experiência de formação continuada, na qual todos aprenderam juntos, refletindo sobre a prática e ressignificando o próprio fazer educativo. O resultado foi a criação de uma identidade institucional forte, baseada em princípios e valores inacianos, e a consolidação de uma cultura de gestão colaborativa e participativa.
A tese contribui significativamente para a consolidação da memória institucional, fortalecimento da identidade e senso de pertencimento inacianos. Busca potencializar, sistematizar e articular diferentes saberes visando aprimorar a promoção da educação inaciana. Atua como referência para educadores e gestores da RJE, tanto no presente quanto no futuro, ao destacar o valor da pesquisa e da formação continuada na oferta de uma aprendizagem integral, orientada pelo Magis e pelo bem maior.
Práticas de gestão personalistas, autoritárias ou excludentes não são compatíveis com o perfil desejado do gestor inaciano nas instituições atuais. O estudo, comprova essa afirmativa e enfatiza, ainda, a relevância da gestão em rede, da escuta ativa e da corresponsabilidade, defendendo uma cultura institucional pautada em processos coletivos e não em lideranças individuais. De igual forma, amplia essas discussões, abordando a história da educação inaciana, os desafios contemporâneos da gestão em rede e destaca a importância da formação continuada e da inovação. É uma reafirmação da identidade inaciana da RJE, ancorada em valores como discernimento, escuta, cuidado com a pessoa e busca do Magis, sustentando que tal identidade deve ser respaldada por um projeto comum, e não por lideranças isoladas.
Como o conceito de gestão colaborativa se mostrou essencial ao longo da estruturação da RJE e da implementação do PEC nas unidades?
A gestão colaborativa constituiu o alicerce da estruturação da RJE. Desde sua origem, adotou-se um modelo de organização colaborativa, uma gestão em rede, com foco na valorização da participação de todos os envolvidos, na construção coletiva de soluções e na corresponsabilidade pelos resultados alcançados. Dentro desse processo, o movimento mais significativo foi a construção e elaboração do Projeto Educativo Comum (PEC) da RJE. O desenvolvimento do PEC contou com seminários presenciais, contemplando os educadores das diferentes áreas, uns mais voltados para a docência, outros na área administrativa e outros da pastoral. Foram constituídos diversos grupos de trabalhos (GTs), promovidas consultas amplas, e os principais temas foram hierarquizados, permitindo a todos os colaboradores elegerem suas prioridades, que posteriormente constituíram as prioridades comuns da Rede, o que resultou num belo exercício de construção participativa.
O processo de consolidação da RJE evoluiu gradualmente, passando de unidades autônomas para uma percepção integrada de Rede, as quais, pouco a pouco, se perceberam como pertencentes a uma grande rede, culminando em um entendimento mais profundo do “ser Rede”. Trata-se de passar de uma compreensão de ser parte integrante de uma rede para a consciência ontológica de ser Rede. Destaco a importância de envolver o maior número possível de educadores e de criar estratégias que permitam a cada participante contribuir de acordo com sua realidade particular.
Assim, uma gestão colaborativa permitiu superar modelos personalistas e centralizadores, promovendo a autonomia das unidades dentro de um projeto comum. Tratava-se de garantir a unidade na diversidade, recolher a riqueza das diferenças para enriquecer o corpo apostólico como um todo voltado para a missão educativa. Outro elemento importante é que o discernimento inaciano permeou todas as etapas, favorecendo decisões mais assertivas e alinhadas à missão. A experiência mostrou que a colaboração gera inovação, fortalece vínculos e potencializa o desenvolvimento integral dos sujeitos e das instituições. O trabalho em rede, com visão global e atuação local, tornou-se marca distintiva da RJE.
Quais acertos e desafios vivenciados entre 2014 e 2020 considera mais marcantes para o fortalecimento da missão e visão da Rede?
Entre os acertos mais marcantes, destaco a construção coletiva do PEC. O documento constituiu um forte elo de unidade, pois ele foi tecendo as diferenças, convidando à unidade e a consolidando. O PEC reforçou a importância de bebermos da mesma fonte, reconhecer a riqueza da tradição educativa da Companhia de Jesus. Outros aspectos bem presentes no primeiro ciclo e que hoje seguem tão ou até mais atuais do que na época são (1) a necessidade de criar espaços de escuta e participação, (2) a valorização da formação continuada dos educadores, (3) gestão profissional e colaborativa, sem personalismo ou autoritarismo, e (4) a sistematização das experiências. O envolvimento de um grande número de educadores na elaboração do PEC gerou adesão e compromisso, fortalecendo a identidade institucional e a coesão da rede. A implementação do Sistema de Qualidade na Gestão Escolar (SQGE) e a articulação com outras redes e movimentos globais da Companhia de Jesus também foram elementos significativos que fortaleceram a criação e consolidação da RJE.
Entre os desafios observados, destaca-se a necessidade de superar resistências à mudança, especialmente relacionadas à cultura de autonomia, que pode resultar em posturas individualistas e relutância à colaboração com aqueles que mais necessitam, além da limitada adesão a práticas colaborativas. A diversidade dos contextos e realidades demandou flexibilidade e capacidade de adaptação, fatores nem sempre facilmente alcançáveis. Adicionalmente, a rotatividade nas lideranças e a necessidade de maior protagonismo estudantil foram identificadas como aspectos a serem desenvolvidos. Por fim, a pandemia de COVID-19 impôs desafios inéditos, mas também evidenciou a força da rede, promovendo diálogos frequentes entre as unidades e ampliando o uso eficiente das tecnologias em um país de dimensões continentais, ressaltando a relevância do trabalho colaborativo para a superação de crises e a inovação nas práticas educativas.
Considerações Finais
A experiência da fundação da RJE em um país de dimensões continentais foi uma conquista feita por muitas mãos. A necessidade, a abertura e o empenho em sonhar com um projeto comum e se comprometer em transformar o sonho em realidade permitiram uma experiência única e transformadora. Os saberes se entrelaçaram, os sujeitos sonharam juntos e construíram um projeto de educação inaciana comum, respeitando as diversidades, mas reconhecendo uma tradição centenária, rica e cheia de possibilidades, permeada pelo discernimento e por atitudes e compromissos de colaboração. O processo gerou características próprias da gestão e do gestor inaciano: abertura ao novo, escuta ativa, discernimento, cuidado com a pessoa, busca do Magis e compromisso com a missão. A sistematização dessa experiência contribui para valorizar a formação contínua dos educadores e reforça a importância da pesquisa e do aprofundamento acadêmico para a missão educativa da Companhia de Jesus no Brasil.
Tanto na tese quanto no livro, busco uma aproximação entre o PEC e uma canção. Como mote, uso a Canção dos homens, que relata, de forma poética e pragmática, a importância de termos canções que nos identificam individual e coletivamente. Essas canções são referências em nossas vidas e devemos voltar a elas sempre que somos desafiados em nossa jornada: elas servem para mostrar quem somos (eu), com quem estamos (comunidade), por quem vivemos (atuação) e para quem nos dedicamos (serviço), enfim, apontam para a nossa identidade institucional. “Só conhecendo a ‘canção’, a identidade que nos une, é possível cantar em sintonia e harmonia, construir sonhos coletivos e promover educação que gera o desenvolvimento pleno dos educandos. O PEC – que atualmente está presente em todas as unidades da RJE, norteia e direciona o apostolado educativo da Educação Básica dos jesuítas no Brasil – foi concebido a partir de um sonho comum. Foi tecido por muitas mãos, reunindo desejos, sonhos, necessidades e anseios de jesuítas e leigos comprometidos com a missão de educar crianças e jovens numa perspectiva inaciana.”
O PEC, portanto, é mais do que um documento: é uma canção coletiva, expressão de identidade, compromisso e possibilidade de unidade para toda a Rede. Ele é vivido e transmitido por todos os que fazem parte das unidades educativas, sendo gestado e gerido de forma colaborativa, formando rede e ganhando riqueza a partir da diversidade dos educadores de todo o Brasil. Com ele, somos mais, somos diversos, “somos um”, somos Rede.