A trajetória de Vinícius Soares Pinto no Colégio Medianeira, em Curitiba (PR), começou em 2009, aos 22 anos, quando ingressou na instituição como laboratorista audiovisual. Ao longo dos anos, assumiu diferentes funções, como lecionar Cinema para os estudantes do contraturno e supervisionar os setores de Educação Digital e Comunicação. No segundo semestre de 2015, ele assumiu a coordenação do Midiaeducação, que engloba as áreas do Audiovisual, Biblioteca, Comunicação, Centro de Artes e Esportes, Educação Digital, Espaço Maker, Matrículas, Meios Gráficos e Memorial, até chegar à Direção Administrativa, cargo que ocupa desde 2025.
Paralelamente, manteve um intenso percurso acadêmico, sempre incentivado pelo próprio colégio, com duas especializações latu sensu (Comunicação, Cultura e Arte e em Cinema), dois mestrados e, atualmente, a conclusão do doutorado em Educação e da graduação em Psicologia, previstas para acontecerem em 2026. Essa vivência, profundamente conectada ao cotidiano escolar e aos desafios da gestão, inspirou sua pesquisa no Mestrado Profissional em Gestão Educacional (MPGE) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), intitulada Magis inaciano e discernimento: fortalezas para gestão. No estudo, Vinícius reflete sobre como os princípios do carisma inaciano podem orientar a tomada de decisões e fortalecer a fidelidade à missão em um contexto marcado por pressões e tendências do cenário contemporâneo.
Confira a entrevista completa abaixo:
O que o motivou a escolher o Magis inaciano e o discernimento como eixos centrais da sua pesquisa?
O Magis inaciano e o discernimento surgiram como resposta, caminhos possíveis, durante a minha pesquisa no mestrado profissional em Gestão Educacional. Dando um passo atrás, a motivação da pesquisa foi que, ao assumir a função de coordenador, em 2015, tive um choque ao me deparar com uma série de desafios próprios da gestão, diante de um contexto de crises econômica e política no país. Lembro-me de ficar muito angustiado em como equilibrar cura personalis, cura apostólica, número de alunos, recursos etc. Tratava-se, possivelmente, de uma angústia proveniente de uma visão mais ingênua e maniqueísta da realidade que eu tinha até aquele momento. Felizmente, na época, ao reler o Padre Arrupe, uma citação dele me marcou bastante e, depois, foi pilar para a pesquisa realizada:
“Todos desejaríamos ser bons com os demais, e todos, ou a maioria seríamos relativamente bons num mundo bom. O difícil é ser bom num mundo mau; num mundo onde o egoísmo dos outros e o egoísmo estrutural nos ataca e começa a nos aniquilar.” (ARRUPE, 1980, p.56).
A partir dessa citação, ingressei no mestrado profissional em Gestão Educacional, com o desejo de escutar os diretores da Rede Jesuíta de Educação, todos gestores com muito mais experiência do que eu, se era possível ser um gestor Magis, mesmo diante de um mundo mau. Nas respostas de vários diretores, ficou evidente o quanto o Magis e o discernimento contribuem para o manejo e a compreensão da realidade, que é complexa e não maniqueísta.
A pesquisa aponta que o Magis inaciano e o discernimento seguem sendo fortalezas para a gestão, mesmo em contextos de crise. Como esses princípios se traduzem, na prática, nas decisões do dia a dia?
Visualizo que o Magis inaciano impulsiona a pessoa a movimentar-se, tendo o bem comum como fim, e que o discernimento clareia por qual caminho seguir, seja em cenários de muita euforia ou de desalento. Por isso, são fortalezas para a gestão, pois exigem leitura de contexto, criticidade e esperança, independentemente da decisão a ser tomada.
A partir das contribuições de diretores da Rede Jesuíta de Educação, que aprendizados coletivos emergiram sobre a fidelidade à missão em tempos de pressão por resultados e eficiência?
O principal aprendizado é de que, sim, a realidade é complexa e a dimensão do contraditório faz parte. Quanto mais leitura de contexto(s), escuta e observação de diferentes realidades, menos espaço para visões maniqueístas e deterministas sobre qualquer tema. O modo de proceder inaciano é essencial para não se reduzir a vida – de pessoas ou organizações – a engrenagens de uma gestão gerencialista (ver Vincent Gualejac), que opera na promessa de uma eficiência que não se sustenta a longo prazo.
Assim como a citação do Padre Arrupe me inspirou em 2015 diante dos desafios enfrentados naquela época, dez anos depois um trecho da entrevista do Padre Arturo Sosa, na obra A Caminho com Inácio, traduz um pouco do momento atual, em que a angústia se transformou em consciência sobre como encarar os desafios diários:
“Se associo a felicidade à ausência de problemas, nunca serei feliz. Também não conseguirei ser feliz se me dedico somente a resolver problemas. Uma boa educação sabe incorporar a tensão e o conflito como parte da vida e os vê como oportunidades de crescimento. Mas ainda, leva a entender que a felicidade pessoal está intimamente ligada à felicidade da comunidade mais ampla. Não se pode ser feliz em isolamento.”
Que caminhos você enxerga para que as escolas da RJE consigam equilibrar sustentabilidade, inovação e fidelidade ao carisma inaciano no contexto atual?
A leitura e releitura de diferentes contextos são fundamentais para caminhar com segurança, discernindo por onde avançar, recuar e recalcular, sempre que necessário. Por exemplo, não é porque muita gente tem naturalizado a barbárie do aceleramento da rotina que é preciso considerar como uma condição sine qua non do presente e do futuro. Desse modo, seja o educador ou o colégio – pessoa física ou jurídica – precisa responsabilizar-se sobre onde aterrar a própria vida. Caso contrário, não resistirá à correnteza. Para isso, o Magis e o discernimento inaciano são fundamentais.

