A história de Andreia Goulart Salomão com o Colégio Santo Inácio (CSI), no Rio de Janeiro (RJ), começa ainda na infância, quando ingressou como aluna aos seis anos de idade. Desde então, sua trajetória se entrelaça com a missão educativa da instituição: de estudante a educadora, passando pelo trabalho no pré-vestibular comunitário Invest até assumir, ao longo de duas décadas, diferentes funções na orientação educacional. Atualmente, como Psicóloga Educacional e coordenadora da Equipe de Orientação Educacional, Andreia segue dedicada a promover uma educação mais justa e acolhedora. “Na verdade, sinto que cresci junto com este lugar. Não me lembro de ser uma pessoa sem estar nos corredores deste colégio”, diz.
Essa vivência inspirou o artigo Encontros possíveis: da Comunidade Santa Marta ao Colégio Santo Inácio, desenvolvido na Especialização em Educação Jesuítica: aprendizagem integral, sujeito e contemporaneidade da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no qual reflete sobre o acompanhamento de estudantes bolsistas e os desafios e potências do encontro entre realidades distintas no contexto escolar. Confira, abaixo, a entrevista completa:
O seu artigo parte do encontro entre estudantes do Colégio Santo Inácio e a comunidade Santa Marta. O que mais a motivou a transformar essa experiência em objeto de estudo?
Como aluna do CSI tive a oportunidade de conviver com algumas colegas bolsistas de realidades sociais muito diferentes da minha. Apesar de compartilharmos a mesma sala de aula, a maioria acabava deixando a escola porque não conseguia acompanhar o ritmo acadêmico. Anos depois, já trabalhando no colégio, percebi que essa situação continuava acontecendo. No início da trajetória escolar no CSI, com cinco/seis anos, os alunos bolsistas costumavam apresentar bom desenvolvimento, mas, com o aumento das exigências ao longo dos anos, muitos passavam a ter dificuldades acadêmicas e nem sempre conseguiam permanecer na escola. Essa experiência me levou a refletir sobre as razões dessa evasão e sobre até que ponto a escola poderia fazer mais para apoiar esses estudantes.
Então, o que me motivou foi uma inquietação a partir da certeza de que somente abrir as portas da escola e dar a bolsa de estudo não era o suficiente e uma vontade enorme de abrir outras portas ao longo da trajetória escolar destes estudantes.
O Colégio mantém, desde 1980, um programa de bolsas para crianças da comunidade. A partir da sua pesquisa, quais são os principais desafios para garantir a permanência e o sucesso escolar desses estudantes?
O sucesso escolar de um aluno vai muito além de um desejo pessoal ou de capacidade cognitiva. Existe uma série de fatores que influenciam muito a caminhada acadêmica: uma alimentação adequada, um ambiente propício para estudar, o apoio e o estímulo da família e professores, o sentimento de pertencimento àquela comunidade, as vivências extramuros são alguns deles.
O seu trabalho destaca a importância da escuta de alunos, famílias e colaboradores. Que percepções ou aprendizados mais chamaram sua atenção nesse processo?
Quando eu era orientadora do 1º ano do Ensino Fundamental, durante as reuniões de pais, alertava as famílias sobre a importância de um lugar adequado para as crianças fazerem seus deveres de casa: uma mesa de estudo sem outros estímulos, um ambiente sem barulho para que a criança pudesse focar somente na atividade. Um dia, um aluno que vinha recorrentemente sem dever de casa foi levado à minha sala por uma professora preocupada com uma possível falta de comprometimento. Quando o escutamos mais atentamente sobre seus motivos, ele explicou que sua casa só tinha um quarto onde toda a família dormia, que não conseguia fazer o dever porque a única mesa da casa era a mesa da cozinha e que tinha muito barulho, pois o baile funk durava o final de semana todo…
Tínhamos o hábito, dependendo do projeto da série, de levarmos os estudantes a museus, teatros e cinemas. Uma vez, um aluno estava muito agitado durante a ida ao museu, chegando a tocar em uma das telas da exposição. O que poderia ser interpretado como uma indisciplina ou comportamento inadequado era, na verdade, excitação por estar pela primeira vez naquele espaço e uma falta total de vivência anterior. Ouvindo as famílias e as crianças, comecei a entender que muitas nunca tinham ido ao museu, ao teatro ou cinema e do quanto essa vivência cultural tão diferente da deles impactava a aprendizagem.
Também tive um caso de uma estudante que estava com muita dificuldade de socialização. Conversando com os pais, descobri que eles nunca a levavam às festas dos colegas porque tinham vergonha de conversar com os outros pais que costumavam falar sobre as viagens ao exterior ou restaurantes que eles não conheciam. Além disso, não tinham condições financeiras para comprar presentes caros. Sugeri que eles comprassem xuxinhas de cabelo e que contassem sobre os bares que frequentavam, que provavelmente tinham comidas deliciosas. Após muito incentivo, eles passaram a frequentar as festinhas. E a aniversariante ainda falou que a xuxinha tinha sido o presente mais legal que ela tinha ganhado!
Em resumo, o que fui percebendo foi que para a aprendizagem acontecer, tínhamos que olhar para essas famílias, orientá-las de forma diferenciada. Precisávamos ajudar os estudantes a se sentirem pertencentes e só conseguiríamos isso aproximando as realidades socioculturais de origem com as quais eles estavam se inserindo naquele momento.
Pensando no futuro, que caminhos você acredita que podem fortalecer ainda mais o acompanhamento desses estudantes e favorecer encontros cada vez mais transformadores entre realidades diferentes dentro da escola?
Na minha opinião, o investimento só no âmbito pedagógico dos estudantes não é o suficiente. Precisamos incluir e acolher também suas famílias, ampliando suas vivências culturais, sem negar ou desvalorizar as suas próprias experiências. É também necessário fazer uma conscientização maior com as famílias dos alunos não bolsistas para que possamos ampliar a rede de suporte e cuidado. E, por fim, mas não menos importante, ensinar com intencionalidade para toda a comunidade educativa que conviver com a diferença é algo extremamente potente, um aprendizado em que todos ganham.

