A experiência da Escola Padre Agostinho Castejón (Epac), no Rio de Janeiro (RJ), evidencia como a educação pode se afirmar como instrumento de transformação social em contextos de vulnerabilidade. Nesta entrevista, a diretora-geral Ana Lúcia dos Prazeres Tobias, compartilha sua trajetória na instituição, iniciada em 2014 como assistente social, em um momento de reestruturação da obra, e reflete sobre os caminhos construídos pela escola na promoção da formação integral, no fortalecimento do trabalho em rede e na construção de futuros possíveis para crianças e suas famílias.
Você pode compartilhar um pouco da sua trajetória na Escola Padre Agostinho Castejón (Epac)?
Minha trajetória iniciou em 2014, como assistente social, em um momento de reestruturação da unidade educativa. Na época, o Centro Educativo Padre Agostinho Castejón inseria-se como obra de atendimento social da Companhia de Jesus no apostolado educativo. A instituição vivia um momento de mudanças com novos processos que buscavam a qualificação e sustentabilidade da oferta educativa. Os esforços eram para a reabertura da escola, sob uma nova regimentação junto aos órgãos públicos, bem como, a inserção da política de bolsas de estudo da mantenedora na escola. Com o passar dos anos as ações de apoio à equipe gestora foram tomando mais corpo, e assumi algumas frentes de trabalho na perspectiva da gestão escolar, colaborando tanto com as reestruturações institucionais e sistematização de processos, quanto nas demandas diárias e propostas mais estratégicas de organização da educação. Ao final de 2022, veio o convite para assumir a direção geral da unidade educativa.
A Pedagogia Inaciana aparece como um eixo estruturante da experiência da Epac. Como ela se concretiza no cotidiano escolar, especialmente em um contexto de vulnerabilidade social?
A partir da Pedagogia Inaciana, adotamos metodologias que incentivam a curiosidade e o pensamento crítico, preparando as crianças para serem protagonistas de sua aprendizagem e transformadoras da realidade social em que estão inseridas. Na Escola Padre Agostinho Castejón, a educação de qualidade visa contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e solidária.
Nosso objetivo é colaborar na educação de crianças protagonistas de sua aprendizagem, capazes de transformar suas realidades e a em que estão inseridas. Nossa prática educacional é baseada no compromisso com a formação integral, pautada no humanismo cristão, nos valores inacianos e no desenvolvimento das dimensões cognitiva, socioafetiva e espiritual-religiosa. A Pedagogia Inaciana nos permite através da análise do contexto, planejar projetos pedagógicos que contemplem a ecologia integral, a diversidade étnico-racial e religiosa, a cultura da paz e a parceria com as famílias e a comunidade. Ela fornece um alicerce robusto para nossa prática educativa e orienta nossas práticas diárias, assegurando que cada estudante seja valorizado na sua individualidade e receba o apoio necessário para seu desenvolvimento integral. No entanto, para concretizar essa visão integral no contexto específico da educação infantil, é necessário traduzir esses princípios em objetivos claros e alcançáveis, adequados às características e necessidades das crianças pequenas. Esses objetivos, alinhados à identidade inaciana, orientam nossas ações pedagógicas cotidianas, assegurando que cada experiência vivenciada na escola contribua de forma significativa para o desenvolvimento integral de nossos estudantes.
O artigo Do enclave à educação holística: a Escola Padre Agostinho Castejón e a construção de futuros possíveis em contextos de vulnerabilidade social, publicado na edição de outubro de 2025 da revista Cuadernos de Pedagogía, aponta a importância de ir além dos indicadores tradicionais de avaliação. Quais outros sinais ou evidências vocês consideram para avaliar a qualidade da educação oferecida pela escola?
Indicadores alternativos de qualidade educacional têm ganhado relevância no debate acadêmico e político, à medida que incorporam dimensões qualitativas e contextuais ao processo de avaliação. A qualidade da educação deve ser analisada a partir de múltiplas dimensões. Enquanto os indicadores quantitativos oferecem comparabilidade, os qualitativos demandam instrumentos mais complexos e uma análise mais aprofundada. A qualidade da educação se concretiza também na capacidade de promover processos educativos que desenvolvam sujeitos conscientes, competentes, compassivos, comprometidos e criativos. Os territórios longe de serem espaços somente de carências, campos férteis de produção de saberes, experiências e de pertencimento. A adoção de indicadores qualitativos, representa um avanço significativo na construção de um modelo avaliativo mais justo, sensível às realidades locais e capaz de orientar práticas pedagógicas comprometidas com a equidade e a inclusão.
Muito interessante identificar o movimento de outras obras e escolas do entorno, nos visitando, querendo conhecer como trabalhamos, as indicações das famílias para que outras famílias matriculem seus filhos na escola, o retorno das unidades de educação que recebem nossos alunos para estabelecer parcerias, bem como a rede de instituições e iniciativas locais que identificam a escola como um ponto importante de articulação para suas ações, que de certa forma integram o projeto educativo da escola.
O trabalho em rede é apresentado como um elemento fundamental. Como essa articulação fortalece a atuação da Epac e amplia as possibilidades para os estudantes?
O trabalho em rede tem agregado de forma significativa na gestão da Escola Padre Agostinho Castejón, impactando nas dimensões acadêmica (projetos, professores e garantia das aprendizagens) administrativa (infraestrutura e recursos) e espiritual religiosa (fortalecimento da identidade inaciana e da educação católica). Diante de toda a diversidade de escolas, centenárias ou não, de um canto a outro do país, a Rede nos apoia e instrumentaliza, para que possamos traduzir o Projeto Educativo Comum (PEC), ao nosso contexto educativo com criticidade e profundidade.
O processo de desenvolvimento da Escola Padre Agostinho Castejón com a Rede Jesuíta de Educação, sobretudo nos últimos quatro anos, tem nos fortalecido quanto ao pertencimento como uma obra do apostolado educativo, comprometida com a educação de qualidade aos mais pobres e vulneráveis. A inserção da unidade no Sistema de Qualidade e no Planejamento Estratégico foram marcos importantes e necessários para o posicionamento da escola, nos permitindo projetar ações de curto a médio prazo. A formação continuada e a garantia dos tempos de formação permanente de educadores, apoiados pela RJE tem gerado impactos positivos no âmbito acadêmico, com resultados sobre os projetos pedagógicos e as aprendizagens dos alunos. Neste caminhar é importante ressaltar também o trabalho colaborativo com outras escolas, que nos une aos desafios e nas proposituras. Como exemplo, o retorno do projeto de concessão de bolsas de estudo no Colégio Santo Inácio, para nossos alunos, conforme edital do CSI.
Considero também como contribuições do trabalho em rede todo o processo que tem sido desenhado nos últimos anos para fomento e aporte financeiro às unidades de atendimento social, ao exercício orçamentário do ano letivo, bem como de investimentos para melhorias em infraestrutura, assegurando espaço seguros. O diálogo contínuo para que possamos garantir tempos e espaços escolares que permitam bem praticar a proposta pedagógica, são contribuições significativas ao aprendizado e na formação integral dos alunos, bem como o compartilhamento de saberes, as visitas e experiências locais, agregando em conhecimento, possibilidades e oportunidades. Momentos de encontro que nos situam no corpo de unidade na diversidade.
A escola é vista como agente de transformação social. Na sua experiência, quais mudanças concretas você já percebeu na comunidade a partir da atuação da Epac?
Esta caminhada tem nos apresentado algumas observações que reafirmam a importância da educação, sobretudo em contextos de desigualdade. Uma unidade escolar exerce um papel significativo como agente de oportunidade, ainda que esse processo se dê de forma gradual, relacional e profundamente contextualizada.
Por meio de práticas pedagógicas intencionalmente organizadas, inspiradas na pedagogia inaciana e comprometidas com a equidade, temos observado avanços importantes no desenvolvimento das crianças, o que repercute em suas trajetórias escolares futuras e em suas possibilidades de inserção social, e isso acontece também pela ampliação das oportunidades de desenvolvimento das crianças (atividades extraclasse que visam ampliação do repertório cultural e vivências práticas).
Ao afirmar cotidianamente que crianças de contextos de desigualdade e vulnerabilidade têm direito a uma educação de qualidade, e que esta deve ser garantida, buscamos a reflexão para tensionar desigualdades historicamente naturalizadas e para produzir novas expectativas de futuro, tanto para as crianças quanto para suas famílias.
Importante destacar que o movimento da escola em busca da transformação, pela oportunidade e pelo direito de aprendizagem aos nossos alunos, necessita ser feito coletivamente, com um trabalho articulado e comprometido entre educadores, famílias e comunidade.
Pensando no futuro, quais caminhos você acredita que são essenciais para seguir construindo “futuros possíveis” em contextos marcados pela desigualdade?
Pensar em “futuros possíveis” em contextos de desigualdade, perpassa pelo que se constrói todos os dias, como diz Milton Santos, “o chão vivido” nas relações concretas com alunos, educadores, famílias e comunidade. Eu acredito profundamente na potência de uma educação que enxerga cada criança como alguém cheio de possibilidades — mesmo quando o contexto insiste em dizer o contrário.
A Pedagogia Inaciana nos convida a olhar para o sujeito de forma integral, a importância do contexto, da escuta e do discernimento. Não se trata apenas de ensinar conteúdos, mas de formar pessoas conscientes, competentes, compassivas, criativas e comprometidas com a transformação da realidade. Não podemos perder de vista que estamos falando do direito à educação. Em contextos de desigualdade, afirmar, todos os dias, que todas as crianças têm direito a uma educação de qualidade é um posicionamento ético e político, e por si só, um posicionamento que orienta práticas e decisões institucionais.
É assim que vamos, pouco a pouco, abrindo outras possibilidades de futuro. E tudo isso só se sustenta porque existem educadores comprometidos com essa missão. Investir na formação contínua desses profissionais, para que atuem com intencionalidade, sensibilidade e compromisso social, é também garantir que esses futuros possíveis deixem de ser apenas uma ideia e se tornem realidade. É investir em uma educação que as forme por inteiro. Construir “futuros possíveis” é sustentar, no cotidiano da escola, uma esperança ativa.

