Por Pe. Washington da Silva Paranhos, SJ, diretor do Centro Loyola de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e professor de Teologia e Cultura Religiosa na PUC-Rio.
Continuamos no quarto capítulo da Magnifica Humanitas, intitulado Custodiar o humano na transformação. Verdade, trabalho, liberdade. Depois da reflexão sobre a verdade como bem comum e sobre a exigência de uma comunicação justa, entramos agora na seção dedicada à educação. Os parágrafos 137-145, especialmente os números 139-142, concentram-se sobre a aliança educativa na era digital, o esforço necessário para alcançar a verdade, o uso crítico da inteligência artificial, a proteção dos jovens e a responsabilidade compartilhada entre família, escola e sociedade.
O Papa parte de um dado muito concreto: a educação não pode mais ser pensada à margem da transformação digital (139). O modo como crianças, adolescentes e adultos aprendem, raciocinam e se relacionam está profundamente condicionado pelos instrumentos tecnológicos presentes no cotidiano. Não se trata de dispositivos neutros. Toda tecnologia forma, modela e influencia quem a utiliza. Trata-se de uma afirmação decisiva da encíclica, quase uma advertência a ser colocada diante de cada tela: os instrumentos que usamos diariamente acabam, pouco a pouco, moldando também nossa maneira de viver e compreender a realidade.
No número 137, o Papa já havia falado da necessidade de uma verdadeira ecologia da comunicação. Dentro dessa perspectiva, menciona explicitamente a escola e a família, chamando atenção para a urgência de uma nova consciência educativa e para a formação crítica diante das ferramentas digitais, da IA e das plataformas que ocupam a vida cotidiana. O objetivo não é apenas ensinar competências técnicas, mas formar pessoas capazes de permanecer livres enquanto utilizam tais recursos.
Ao introduzir a reflexão sobre a aliança educativa, o Papa observa que, em um contexto no qual a verdade frequentemente é submetida aos interesses e às estratégias comunicativas, a educação assume importância decisiva. As rápidas mudanças tecnológicas revelam o quanto o mundo educativo ainda está despreparado. A cultura digital, marcada pela hiperestimulação e pelo imediatismo, favorece o cansaço, o tédio e a dificuldade de sustentar o esforço necessário para buscar a verdade (DH 139).
O problema, portanto, não se resume ao uso excessivo do celular pelos jovens – interpretação simplista e frequentemente usada para transferir responsabilidades às novas gerações. A questão é mais profunda. O ambiente digital acostuma as pessoas a estímulos contínuos, respostas instantâneas, conteúdos rápidos e gratificações imediatas. Nesse contexto, o exercício paciente do pensamento passa a parecer inútil. O silêncio torna-se desconfortável. A espera é percebida como desperdício de tempo. A pergunta madura perde espaço diante da necessidade constante de respostas rápidas (DH 140).
A educação cristã, porém, nasce de ritmos diferentes. Ela exige escuta, amadurecimento, memória, discernimento, confronto com a realidade e exercício da liberdade. Não basta acumular informações. É necessário aprender a ordenar aquilo que se recebe, distinguir o verdadeiro do superficial e buscar a verdade com perseverança. Por isso, o Papa insiste que os processos educativos necessitam de tempo, paciência e contato real com a vida para além das aparências.
Nesse contexto aparece uma das afirmações mais significativas do capítulo: “cada tecnologia educa quem a utiliza” (DH 140). Educar para o uso da inteligência artificial significa, então, ensinar também quando não utilizá-la. A tarefa educativa não consiste apenas em disponibilizar ferramentas, mas em formar o juízo crítico. Saber usar a IA para produzir um texto, sintetizar conteúdos ou resolver exercícios não torna automaticamente alguém mais livre. Ao contrário, pode gerar dependência, superficialidade e perda da capacidade de questionar e pensar profundamente.
O Papa não propõe demonizar a inteligência artificial. Tal atitude seria simplista e ineficaz. A questão central é aprender a utilizá-la sem entregar a ela a própria inteligência. A IA pode auxiliar na organização de informações, no esclarecimento de conteúdos e na pesquisa. Quando integrada a um percurso educativo sólido, pode tornar-se um instrumento valioso. Contudo, torna-se prejudicial quando substitui o esforço pessoal, a leitura, a memória, a escrita própria e a experiência do pensamento.
A encíclica alerta que a rapidez com que se obtêm respostas e sínteses pode enfraquecer o desejo de formular perguntas – justamente aquilo que amadurece ao longo do tempo. Há aqui uma importante questão antropológica. A resposta imediata pode satisfazer a curiosidade momentânea e, ao mesmo tempo, empobrecer a inteligência. O pensamento nasce também da ausência, da espera, da busca paciente e do confronto com aquilo que resiste à compreensão imediata. Quando tudo parece disponível instantaneamente, corre-se o risco de perder a capacidade de habitar as perguntas.
O texto recorda inclusive Platão, ao afirmar que as realidades mais profundas são compreendidas somente depois de longo tempo, muito esforço e diálogo com os outros, até surgir a centelha da compreensão (DH 140). Trata-se de uma imagem belíssima: compreender não é simplesmente receber informações prontas, mas experimentar um processo interior de amadurecimento. A educação não funciona como um download; ela é geração interior.
Por isso, a encíclica chega a uma expressão forte: é preciso aprender a “jejuar” da inteligência artificial e proteger os jovens da sedução da máquina perfeita. Esse jejum não é rejeição moralista da tecnologia, mas exercício de liberdade. Como todo jejum cristão, busca reorganizar os desejos, impedir que aquilo que é útil se torne dominador e preservar um espaço interior não colonizado pelas máquinas (DH 140).
Essa reflexão possui consequências muito concretas para pais, educadores, catequistas e comunidades cristãs. Educar na era digital significa ensinar tanto o uso quanto a suspensão das ferramentas. Significa ajudar os jovens a compreender quando é necessário ler um texto integralmente, discutir uma questão em sala de aula, escrever lentamente uma redação, dialogar com um adulto, rezar sem interrupções ou experimentar o valor formativo do silêncio.
Nos números 141 e 142, o Papa apoia-se também em estudos psicológicos e psiquiátricos que mostram os efeitos negativos da exposição precoce e descontrolada às redes sociais e aos dispositivos digitais, sobretudo entre crianças e adolescentes. São mencionados impactos sobre o sono, a atenção, a regulação emocional e os relacionamentos, além do contato com conteúdos violentos, pornográficos ou hiperssexualizados, bem como situações de exploração, chantagem, bullying e cyberbullying.
Não se trata de alarmismo, mas de realismo. O ambiente digital não é neutro nem inocente. É um espaço atravessado por interesses econômicos, mecanismos de manipulação e conteúdos que frequentemente deformam a afetividade e a percepção do corpo e das relações. Entregar precocemente um smartphone a uma criança sem acompanhamento adulto não representa necessariamente confiança educativa; pode significar abandono mascarado de liberdade.
O Papa reconhece, contudo, que os pais não conseguem enfrentar sozinhos esse desafio. O número 142 destaca a necessidade de uma verdadeira aliança entre famílias, instituições educativas e poder público, capaz de sustentar concretamente os adultos diante do enorme poder econômico das plataformas digitais, frequentemente construídas para capturar atenção, criar dependência e transformar fragilidades humanas em lucro.
Por isso, a responsabilidade educativa não pode recair exclusivamente sobre as famílias. A encíclica fala da importância de legislações adequadas, limites etários, responsabilização das plataformas e proteção efetiva da infância e da adolescência. Aqui a Doutrina Social da Igreja assume um caráter muito concreto: os menores não podem permanecer indefesos diante de sistemas digitais orientados predominantemente pelo interesse comercial.
Ao mesmo tempo, o Papa insiste que não basta proibir. É necessário formar interiormente. Crianças, adolescentes e jovens precisam aprender a reconhecer manipulações, defender a própria dignidade e respeitar a dignidade dos outros também nos ambientes digitais. A verdadeira educação nasce quando a pessoa aprende a se perguntar: aquilo que vejo me faz bem? O que compartilho respeita os outros? Este conteúdo favorece minha liberdade ou aumenta minha dependência?
Nesse contexto, a escola possui missão insubstituível. O número 143 afirma que ela deve ser o lugar onde as novas gerações aprendem a amar a verdade, buscar o sentido da vida e reconhecer a dignidade de cada pessoa. Trata-se de uma visão elevada da educação. A escola não pode reduzir-se a centro de treinamento técnico ou mera preparação para o mercado. Ela é espaço de formação humana integral.
Por isso, educar para a inteligência artificial não significa apenas ensinar o funcionamento das ferramentas digitais ou os riscos do plágio e da desinformação. Tudo isso é importante, mas insuficiente. Educar para a IA significa formar integralmente a pessoa: sua atenção, memória, responsabilidade, consciência, afetividade, linguagem e capacidade de relação.
O mundo escolar enfrenta, hoje, alguns desafios inadiáveis. O desafio sociopolítico (desigualdade e acesso). Persistem profundas desigualdades no acesso à educação básica e superior no mundo devido à falta de investimentos estatais adequados, tanto no ensino público quanto no apoio a instituições privadas. Quando o suporte público é escasso, a educação de qualidade torna-se um privilégio financeiro das famílias. Diante disso, destaca-se o papel essencial das instituições educativas católicas, que promovem a inclusão social ao acolher estudantes de todas as origens, independentemente de suas condições financeiras (DH 144).
O desafio pedagógico (atualização e formação integral). Os sistemas de ensino enfrentam dificuldades para acompanhar a rápida evolução tecnológica e a Inteligência Artificial, o que torna os currículos tradicionais obsoletos. Há uma necessidade urgente de repensar métodos de avaliação, espaços escolares e o papel do professor para garantir uma educação integral. Para isso, é indispensável investir na formação contínua dos docentes, capacitando-os a orientar os alunos a utilizarem as novas tecnologias de forma crítica, responsável e criativa, e não passiva (DH 145).
O desafio intelectual e sapiencial (verdade e pensamento crítico). O excesso de informações fragmentadas corre o risco de substituir a verdadeira investigação, a reflexão e a busca pelo sentido da vida, gerando um sistema educacional desumanizado. Para evitar que o acúmulo de dados comprometa a liberdade interior e o pensamento crítico, é necessário cultivar uma “higiene da atenção”, promovendo práticas que incluam o silêncio, o estudo aprofundado, a leitura e o debate ponderado.
As comunidades cristãs possuem aqui uma tarefa própria. Não basta repetir aos jovens que usem menos o celular. É necessário oferecer experiências concretas capazes de despertar desejos maiores: oração, silêncio, amizade verdadeira, leitura, serviço, acompanhamento pessoal, liturgia celebrada com profundidade e tempos livres das telas. O limite não é aprendido apenas pela proibição, mas sobretudo pela descoberta de bens mais profundos.
Nesse horizonte, o silêncio deixa de ser vazio para tornar-se espaço de reencontro consigo mesmo. O esforço intelectual deixa de parecer punição para revelar-se caminho de amadurecimento da inteligência. A lentidão torna-se condição de profundidade. A memória deixa de ser peso inútil para revelar-se fundamento da identidade. A leitura transforma-se em resistência espiritual contra a fragmentação permanente.
A inteligência artificial pode, sem dúvida, favorecer muitos processos educativos. Pode auxiliar pessoas com dificuldades, facilitar pesquisas e ampliar possibilidades de aprendizagem. A encíclica não pede sua rejeição. O que ela recusa é a ideia de entregar às máquinas a tarefa de formar o ser humano. A máquina pode fornecer respostas, mas não gerar sabedoria. Pode organizar dados, mas não formar consciências. Pode simular diálogo, mas não substituir a presença educativa de alguém que acompanha, corrige, encoraja e testemunha.
Educar na era digital significa, portanto, ensinar o uso e o limite; ensinar quando utilizar a inteligência artificial e quando dela se afastar; preservar nos jovens o desejo de compreender e não apenas a habilidade de obter respostas rápidas. Significa proteger a atenção, porque sem atenção não existe escuta; sem escuta não existe relação; e sem relação não existe verdadeira educação.
A Magnifica Humanitas confia à Igreja e à sociedade uma tarefa pastoral urgente. Famílias, escolas, catequistas, paróquias e educadores são chamados a construir uma verdadeira aliança educativa. Não para combater a tecnologia em si mesma, mas para impedir que ela destrua a interioridade humana.
Uma aliança educativa e o papel da escola. A Doutrina Social da Igreja propõe uma união entre famílias, escolas, comunidades e o Estado em torno de uma “aliança educativa” focada em valores essenciais: sobriedade, respeito ao direito alheio, responsabilidade, transcendência e o bem comum. Mais do que tentar competir com a velocidade do mundo digital, a função primordial da escola é oferecer aquilo que a tecnologia não substitui: tempo partilhado para a aprendizagem e a construção de relações de confiança (DH 147).
No fundo, educar para a inteligência artificial significa educar para a liberdade. E a liberdade precisa de silêncio, pausa, esforço, espera, verdade e limites – realidades pouco compatíveis com a lógica acelerada da economia da atenção e exatamente por isso profundamente revolucionárias. O progresso colocou em nossas mãos máquinas capazes de responder em segundos. Permanece, porém, a tarefa mais difícil e mais humana: formar pessoas capazes de pensar, amar, escolher e rezar sem se tornarem escravas da máquina que carregam consigo.

