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Estereótipos na infância: o desafio de educar sem limitar escolhas

Por Igor A. Assaf Mendes, professor do Colégio Loyola, em Belo Horizonte (MG), sociólogo e doutor em Educação. Texto publicado na coluna da instituição no Portal Estado de Minas.


“Isso é coisa de menino”. Minha filha de 5 anos falou essa frase quando eu sugeri uma brincadeira. Achei estranho, afinal, não é o tipo de coisa que falamos em nossa casa. Quando minhas meninas me perguntam por que eu não uso maquiagem ou esmalte, a resposta é a mesma: “Porque não gosto”, não porque “é coisa de menina”. Mas, se ela falou, deve haver alguma razão. “Por quê?”, perguntei, genuinamente interessado. Ela articulou da melhor maneira possível para uma criança da idade. Ao final, compreendi que, por observação, ela concluiu que meninos brincam de bola, meninas de boneca.

Quantas vezes nós, pais, já passamos por alguma coisa assim, seja com filhas ou filhos? Ou quantas vezes não passamos por isso quando éramos nós as crianças? Não faça isso, não faça aquilo. É sobre brinquedos, brincadeiras ou formas de vestir. É sobre comportamento, sobre moral ou bom costume. O que essas atitudes provocam é uma oposição sem sentido e prejudicial.

Como os rótulos moldam o comportamento infantil

Não é achismo. Pesquisas em psicologia e sociologia mostram que boa parte das diferenças entre meninos e meninas não nascem com eles, são ensinadas. Garotos são incentivados a se aventurar, arriscar, explorar. Garotas, a cuidar, observar, se conter. Com o tempo, isso molda habilidades, escolhas e até a forma como cada um se vê no mundo. Se fosse apenas uma questão de preferências, talvez pudéssemos relevar. O problema é que nossa cultura extrapola: separa e hierarquiza. Ser menino vira sinônimo de ser superior. E é aí que o estrago começa.

Ao opormos meninos e meninas, geramos na cabeça das nossas crianças uma diferenciação social que, ainda que nos pareça bem-intencionada, é confusa, e essa confusão pode levar ao sofrimento. Escolher uma identidade não é apenas questão de preferência, mas passa a ser excluir e desprezar a outra. Geralmente são meninos que desprezam as meninas, humilham, tratam como inferiores. O resultado é, na “melhor” das hipóteses, moças que lutam contra essa inferiorização ao longo da vida. Na pior, criamos meninos que humilham e violentam mulheres.

Mas é possível fazer diferente. E há países que provam isso. A Islândia instituiu uma educação que empodera suas meninas desde a educação infantil, incentivando atividades associadas a “coisas de meninos”: correm, escalam, pulam e lideram. Os meninos praticam na escola atividades associadas aos afazeres domésticos e aos cuidados. Resultado: a Islândia é, há mais de dez anos, o país com menores índices de violência de gênero e maiores índices de igualdade entre homens e mulheres.

O que isso significa na prática, dentro de casa?

Para nossa geração, entre os 30 e 50 anos de idade, significa vencermos a cultura machista que introjetamos na sociedade. Fomos criados nesse padrão, sabemos que não por maldade. Mas, foram gerações e mais gerações em que isso era o normal e todos acreditavam genuinamente que as coisas funcionavam bem. Hoje é nosso dever criarmos consciência e não transmitir isso aos nossos filhos. Podemos começar com pequenas atitudes:

As palavras também educam: observe a linguagem do dia a dia. Frases como “isso é coisa de menino”, “menino não chora” ou “menina não faz isso” parecem inofensivas, mas ensinam limites que a criança não escolheu. Vale a pena pausar e perguntar: por quê? Uma dica: a atitude não ofende a dignidade ou hostiliza alguém? Se a resposta for não, pense a respeito da necessidade de correção.

Amplie as possibilidades de escolha: ofereça experiências variadas, sem forçar. Não se trata de obrigar a brincar de boneca e bola, mas de garantir que a escolha seja da criança, não da pressão social. Meninos que aprendem a cuidar e meninas que aprendem a liderar crescem mais inteiros.

Transforme o diálogo em aprendizado: fale sobre isso abertamente. Não subestime seus filhos, pois crianças e adolescentes percebem contradições. Aceite questionamentos e dúvidas que surjam de forma autêntica e respeitosa, e conversem sobre isso.

Dê exemplos no dia a dia: procure dividir as atividades da casa entre os moradores sem diferenciação, a não ser por limitações físicas de cada um. Se em casa se prega igualdade, mas na prática as tarefas domésticas recaem apenas sobre as mulheres, a mensagem real é outra. Coerência educa mais do que discurso.

Por fim, lembre-se: estamos aprendendo com a experiência tanto quanto os nossos filhos. Criar seres humanos respeitosos não exige um manual, exige atenção ao que normalizamos sem perceber. “Não, minha filha. Você pode fazer o que quiser. E não deixe menino nenhum dizer o que você pode ou não fazer. Nem menino, nem adulto, nem ninguém.” Foi o que disse a ela. “Nem o papai?”, me perguntou. “Nem o papai.”

Respeito e diversidade fazem parte do Colégio Loyola

Ao longo de mais de 80 anos de história, o Colégio Loyola construiu uma proposta educativa que entende a formação dos estudantes para além do desempenho acadêmico. Inspirada na pedagogia inaciana, a instituição incentiva o pensamento crítico, o respeito às diferenças e a construção de uma convivência baseada na empatia, no diálogo e na responsabilidade coletiva. Como integrante da Rede Jesuíta de Educação, presente em mais de 80 países, a escola desenvolve projetos que valorizam a diversidade, o protagonismo  estudantil e a formação de cidadãos comprometidos com a transformação da sociedade.

 

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