Entre a sala de aula e a gestão pedagógica, Amanda dos Reis Santos Megda foi construindo um olhar cada vez mais atento aos diferentes modos de aprender. No Colégio dos Jesuítas, em Juiz de Fora (MG), onde atua desde 2007, foi assistente da coordenação da Educação Infantil, professora dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, coordenadora da Educação Infantil e, atualmente, coordena a Unidade I.
Essa experiência despertou seu interesse em compreender como as práticas pedagógicas e a gestão podem criar condições para que cada estudante aprenda e se desenvolva integralmente. A reflexão deu origem à pesquisa Vários ensinos para muitas aprendizagens: um estudo sobre aprendizagem, atuação docente e gestão educacional, desenvolvida no Mestrado Profissional em Gestão Educacional (MPGE) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Confira a entrevista completa abaixo:
O que a motivou a desenvolver a pesquisa Vários ensinos para muitas aprendizagens: um estudo sobre aprendizagem, atuação docente e gestão educacional?
A pesquisa nasceu de uma inquietação que me acompanha desde a docência: por que estudantes que participam de uma mesma proposta pedagógica aprendem de maneiras tão diferentes? Durante minha experiência com a alfabetização, percebia que algumas crianças avançavam com determinadas estratégias, enquanto outras precisavam de novos tempos, recursos, interações e formas de mediação.
Quando passei a atuar na gestão, essa questão ganhou uma dimensão institucional. Compreendi que a aprendizagem não depende somente do esforço do estudante ou da atuação isolada de um professor. Ela envolve, entre outras variáveis, o planejamento, as práticas pedagógicas, as relações estabelecidas, a avaliação, o acompanhamento e as condições criadas pela gestão educacional.
A pesquisa também dialoga profundamente com o Projeto Educativo Comum da Rede Jesuíta de Educação, que nos convida a transformar nossas instituições em verdadeiros centros de aprendizagem e a não atribuir a não aprendizagem exclusivamente ao estudante. Foi esse compromisso que me motivou a investigar como professores e gestores podem atuar de forma articulada para ampliar as possibilidades de aprendizagem.
Cada estudante aprende de forma singular. Como essa compreensão pode transformar o planejamento e a prática dos professores?
Essa compreensão modifica, primeiramente, a própria concepção de planejamento. Planejar não pode significar apenas definir uma atividade e esperar que todos aprendam da mesma maneira. O planejamento precisa apresentar intencionalidades claras, mas também permanecer aberto às respostas, às necessidades e às aprendizagens que emergem durante o processo. Na prática, isso significa oferecer diferentes linguagens, recursos, agrupamentos e formas de participação; alternar propostas coletivas, trabalhos em pequenos grupos e acompanhamentos individuais; observar como cada estudante se envolve; e utilizar a avaliação para reorganizar o ensino, e não apenas para verificar resultados.
Um dos aprendizados mais importantes da pesquisa foi compreender que a realização do que estava previsto no planejamento não comprova, por si só, que houve aprendizagem. É necessário buscar evidências: o que o estudante compreendeu? O que conseguiu realizar com autonomia? Que dificuldades apresentou? De quais outras experiências necessita? Assim, o planejamento deixa de ser um roteiro rígido e passa a ser um instrumento vivo de observação, reflexão e tomada de decisão. O professor mantém os objetivos formativos, mas diversifica os caminhos para alcançá-los.
Como a interação entre os estudantes, mediada pelos educadores, dialoga com a formação integral jesuíta?
A interação não é apenas uma estratégia metodológica; ela é constitutiva da aprendizagem. Os estudantes aprendem ao dialogar, observar, argumentar, colaborar, cuidar uns dos outros e confrontar diferentes maneiras de compreender o mundo. Nesse processo, não aprendem somente conteúdos: desenvolvem autonomia, empatia, escuta, responsabilidade, capacidade de cooperação e consciência sobre si e sobre os outros.
O educador exerce uma mediação essencial. Cabe a ele criar contextos seguros e desafiadores, observar as particularidades dos estudantes, organizar as interações e ajudar cada um a avançar a partir de suas possibilidades. A mediação não substitui o protagonismo do estudante, mas oferece as condições para que ele se desenvolva. Esse olhar atento para cada criança foi especialmente aprofundado durante a especialização em Educação Jesuítica, que concluí em 2019. A formação favoreceu importantes reflexões sobre o cuidado com a singularidade de cada estudante e sobre a responsabilidade do educador de reconhecer suas necessidades, potencialidades e diferentes modos de aprender.
Essa perspectiva dialoga diretamente com a formação integral proposta pela educação jesuíta, porque considera inseparáveis as dimensões cognitiva, afetiva, espiritual, ética e relacional. Também concretiza a cura personalis, o cuidado com cada pessoa em sua singularidade, sem perder de vista que nos constituímos e aprendemos em comunidade.
Quais ações da gestão fazem diferença para que todos tenham oportunidades de aprender?
A principal contribuição da gestão é transformar a aprendizagem em uma responsabilidade verdadeiramente institucional. Isso significa superar uma atuação predominantemente administrativa e compreender a gestão como uma forma de mediação da aprendizagem. Faz diferença uma gestão que: assegura tempos e espaços de planejamento, formação e reflexão coletiva; acompanha não apenas o que foi ensinado, mas as evidências do que os estudantes estão aprendendo; apoia os professores na construção de estratégias diferenciadas; articula professores, orientadores e famílias; garante os recursos e as condições necessárias para a realização das propostas; promove uma cultura em que as dificuldades possam ser analisadas coletivamente, sem culpabilizar o estudante, a família ou o professor; incentiva o registro, a avaliação e a revisão permanente das práticas.
A gestão também precisa formular perguntas pedagógicas: quem está aprendendo? Quem ainda não foi suficientemente alcançado? O que precisa ser reorganizado? De que apoio o professor necessita? Quando essas perguntas orientam as decisões, a escola amplia concretamente as oportunidades de aprendizagem.
Quais reflexões passaram a orientar sua prática profissional após a pesquisa?
A primeira reflexão foi reconhecer que o planejamento é indispensável, mas não pode ser considerado um fim em si mesmo. É preciso acompanhar o que acontece com cada estudante e ter disponibilidade para rever percursos, estratégias e expectativas. A segunda foi compreender a aprendizagem em um sentido mais amplo. Nem sempre o estudante aprende exatamente aquilo que o educador havia previsto e pode, inclusive, ir além do que era esperado. Ele também aprende nas interações, nas escolhas, nas emoções, na oralidade, na construção da autonomia, na convivência e na maneira como atribui sentido às experiências. Por isso, é importante reconhecer e documentar aprendizagens que muitas vezes permanecem invisíveis.
A terceira reflexão diz respeito à corresponsabilidade. Professores e gestores precisam compreender-se como aprendentes, analisar suas práticas e construir respostas coletivamente. Minha atuação passou a ser ainda mais orientada por um movimento permanente de observar, escutar, registrar, refletir, intervir e avaliar novamente, em parceria com os docentes.
Essas reflexões também contribuíram para que eu fortalecesse um olhar investigativo sobre a nossa atuação gestora na escola. Mais do que oferecer respostas, procuro criar condições para que a equipe formule boas perguntas e participe da construção das decisões. Esse movimento continua presente em minha atuação profissional e em minha atual pesquisa de doutorado.

