Família Altoé, do Colégio São Francisco Xavier, em São Paulo (SP)
Em meio a uma rotina repleta de compromissos, encontrar tempo para o estudo, o lazer e a convivência familiar pode parecer um grande desafio. O planejamento familiar surge como um caminho essencial para criar rotinas saudáveis, promovendo o bem-estar de crianças, jovens e adultos. Para as unidades da Rede Jesuíta de Educação (RJE), o aprendizado também acontece nos vínculos familiares, nas brincadeiras, nas conversas à mesa e nos momentos de reflexão. Mas como organizar o dia a dia para que todas essas dimensões coexistam de forma harmoniosa?
Saulo Tractenberg, professor e coordenador do curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), aponta que uma das maiores dificuldades é conseguir “desligar” das preocupações do dia a dia. “Mesmo que a família esteja junta, no mesmo ambiente, ela pode não estar vivendo aquele presente, conectada. Pelo contrário, ela está desconectada por estar, muitas vezes, conectada a outros dispositivos”, explica. Essa dificuldade de estar presente no momento compromete a qualidade da convivência e o bem-estar emocional. Entretanto, a tecnologia pode se tornar uma grande aliada, segundo Tractenberg, se bem utilizada, otimizando o tempo e facilitando tarefas em pesquisas escolares e estudos. No entanto, o mau uso da tecnologia pode invadir momentos importantes de lazer e convivência, desconectando as pessoas da realidade ao redor. “Estar conectado o tempo todo pode fazer com que as pessoas percam a capacidade de viver o presente”, alerta.
Para melhorar essa dinâmica, o docente sugere que as famílias estabeleçam momentos bem definidos para a convivência, garantindo que eles façam parte da rotina. “Se há um momento de conversa durante o jantar, é importante evitar interrupções, deixando de lado o celular e outras preocupações”, recomenda. Ele também destaca a importância de planejar esses momentos para que não fiquem apenas como uma possibilidade eventual. “O sábado em família deve ser algo concreto, o almoço de domingo pode ser um espaço garantido, assim como assistir a uma série juntos. Isso precisa estar dentro da programação, e não apenas acontecer quando der”. Conforme Camila Portugal, orientadora educacional do Colégio Antônio Vieira, em Salvador (BA), fazer momentos de escuta com os filhos é fundamental. “Estabelecer rotinas ouvindo esse estudante, de modo que ele possa se sentir protagonista da sua própria rotina, estruturar junto com ele tudo o que ele deseja fazer e intercalando também com a opinião desses pais, o que vai ser também preponderante para que a rotina seja exequível”.
Outro ponto de atenção está no excesso de atividades extracurriculares, que podem sobrecarregar a rotina familiar. Segundo Tractenberg, a organização e a disciplina são fundamentais para evitar essa sobrecarga. “As atividades precisam estar bem estruturadas dentro de um horário fixo, evitando que sejam atravessadas por outras demandas”, ressalta. “É preciso priorizar. A escola é a prioridade máxima. As atividades extracurriculares, elas precisam fazer sentido para o estudante, não somente fazer por fazer. Portanto, criar uma tabela de prioridades, de modo que esse estudante possa fazer aquilo que agrega para ele na formação, mas que também traz prazer e bem-estar”, completa Camila. O problema, muitas vezes, não está no excesso de atividades em si, mas na falta de um planejamento eficaz.
A importância da rotina e do tempo juntos
Na casa da família Altoé, Salvina e Henock, pais de Maria Eduarda e Henock, estudantes do Colégio São Francisco Xavier, em São Paulo (SP), encontraram formas de estar juntos. “Sempre, ou 99% dos dias do ano, tomamos café pela manhã, assistimos a um filme ou desenho à noite, nos finais de semana saímos para jantar ou almoçar em locais que agradam as crianças e viajamos nos feriados para encontrar os avós e criarmos as memórias afetivas”, comenta Salvina. A rotina do pai, que trabalha pelo menos 10 horas por dia como médico, representa um desafio. “Mesmo assim, algumas coisas não abrimos exceção, como o nosso café matinal e levar e buscar na escola pelo menos duas vezes na semana”, acrescenta. Incluir os filhos no planejamento da rotina tem feito toda a diferença. “Eles são reflexos nossos, para hoje e para o futuro, Por isso, aos finais de semana, sempre fazemos ao menos uma coisa que eles gostem muito: piscina, shopping ou viagem”, compartilha a mãe.
Na rotina de Caroline Uchoa e sua filha Yasmin, estudante do 4º ano do Colégio Santo Inácio, em Fortaleza (CE), sempre há espaço para um tempo de qualidade juntas. “Durante a semana, a rotina é bem intensa! Começamos cedo: escola, academia, trabalho, casa da avó, reforço, trabalho de novo… Mas, no meio dessa correria, sempre damos um jeito de ter nossos momentos: tomamos banho batendo papo, organizamos o material da escola e conversamos como foi o dia. No final de semana é o nosso momento, seja em casa de pijama vendo filme, ou aproveitando com amigos e a família”, diz. Para manter tudo funcionando, Caroline aposta em horários bem definidos e no apoio da avó. Ainda assim, alguns ajustes são desejados: “Gostaria de conseguir ler mais histórias antes de dormir e brincar um pouco, mas confesso que, às vezes, o cansaço vence e dormimos no meio do caminho”.
O maior desafio, segundo ela, é o cansaço do dia a dia. “A rotina puxada às vezes nos rouba aqueles momentos que tanto queremos ter. A lista de responsabilidades parece que não tem fim, mas tento lembrar que o que importa não é a quantidade de tempo, mas sim a qualidade dos momentos que conseguimos ter juntas”, considera. Para fortalecer os laços, Caroline faz questão de incluir Yasmin nas pequenas decisões do dia a dia. “Isso faz com que ela se sinta parte de tudo e, ao mesmo tempo, aprenda sobre responsabilidade e autonomia. Quando ela ajuda a planejar, tudo fica mais especial! Ela se sente importante e engajada, seja escolhendo um passeio ou até decidindo o que vamos jantar. Assim, tudo flui melhor, e ela aprende desde cedo que organização faz parte da vida – mas de uma forma leve”, sugere.
Para ler:
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