Por Pe. Washington da Silva Paranhos, SJ, diretor do Centro Loyola de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e professor de Teologia e Cultura Religiosa na PUC-Rio.
Introdução
A educação brasileira contemporânea vive um paradoxo: nunca tivemos tanto acesso a tecnologias e metodologias ativas, mas raramente estivemos tão distantes de uma formação que faça sentido para a vida. O que se observa em nossas salas de aula é um crescente vazio existencial, manifestado por crises de atenção e desmotivação. Para superar esse quadro, é urgente que a escola reconheça a dimensão espiritual – não como doutrinação, mas como o desenvolvimento da interioridade – como pilar essencial para a qualidade de vida e a formação integral de alunos e professores.
1. O cansaço do desempenho e a ilusão da autonomia
Vivemos sob a ditadura da eficiência. A promessa de liberdade transformou-se em uma cobrança incessante por produtividade e “auto-otimização”. No Brasil, essa lógica invade a infância, onde crianças são precocemente inseridas em agendas lotadas de competências técnicas. Esse “poder tudo” gera uma exaustão moral, onde o fracasso é lido como falta de esforço individual, gerando culpa e vigilância constante. Até as esferas que deveriam ser gratuitas, como a família e o lazer, tornam-se extensões desse sistema de metas, esvaziando a alma do que ela tem de mais humano: o descanso e o espanto.
Como aponta Byung-Chul Han, o indivíduo moderno é, ao mesmo tempo, vítima e carrasco de si mesmo. Na escola, isso se traduz em um ambiente de hiperestimulação onde o “multitarefa” é confundido com inteligência, mas na verdade impede a contemplação. O resultado é uma atenção rasa e fragmentada, que impossibilita o aluno de se aprofundar no conhecimento e em si mesmo, gerando o que Han chama de “infarto da alma”.
2. Terceirização da fé e ausência parental: o dilema brasileiro
Um fenômeno marcante no cenário nacional é a busca das famílias por escolas confessionais ou religiosas tradicionais, motivadas pelo desejo de uma “educação de valores”. No entanto, ocorre uma contradição pedagógica: os pais buscam essas instituições para que elas realizem a formação moral que eles próprios, por ausência ou exaustão, não conseguem mais cultivar no ambiente doméstico. A escola é vista como um “depósito de ética”, mas a formação integral exige a presença viva da família.
Essa terceirização cria uma lacuna afetiva insuperável. Quando os valores são tratados como conteúdo didático e não como vivência compartilhada em casa, a criança percebe a espiritualidade como uma obrigação formal, e não como uma bússola existencial. Sem o lastro do exemplo parental e do convívio doméstico, a espiritualidade na escola corre o risco de tornar-se apenas mais uma disciplina técnica, desprovida de enraizamento e incapaz de gerar transformação real no caráter do jovem.
3. Entre o dogma e o sentido: a espiritualidade como antropologia
É fundamental distinguir espiritualidade de religiosidade. No Brasil, o debate muitas vezes é sequestrado por ideologias político-religiosas que interferem na autonomia pedagógica, tentando impor agendas específicas sob o pretexto da fé. Uma escola com interioridade deve ser laica, mas não estéril; ela deve proteger o direito do aluno de perguntar “para quê viver” sem que a resposta seja um dogma imposto, mas sim uma descoberta da própria humanidade e da ética do cuidado.
Trata-se de uma espiritualidade antropológica, fundamentada na busca universal por significado. Ao abrir espaço para o silêncio e para o questionamento sobre a transcendência, a escola não está pregando uma religião, mas validando uma necessidade humana básica. Ignorar essa dimensão é oferecer uma educação incompleta, que prepara o aluno para “fazer” e “ter”, mas o deixa analfabeto no “ser” e na capacidade de lidar com as angústias da existência.
4. A pedagogia inaciana: encontrar Deus e o sentido em todas as coisas
Neste contexto de busca por profundidade, a Pedagogia Inaciana oferece um caminho singular. Fundamentada na espiritualidade de Santo Inácio de Loyola, ela propõe a experiência de “buscar e encontrar Deus em todas as coisas”. Na prática escolar, isso significa que nenhuma área do conhecimento é neutra ou puramente técnica; tudo pode ser um veículo para a transcendência e para o encontro com o sagrado.
O Paradigma Pedagógico Inaciano (Contexto, Experiência, Reflexão, Ação e Avaliação) permite que o aluno não apenas acumule informações, mas veja “todas as coisas em Deus”. O objetivo final não é o sucesso individualista, mas a “Maior Glória de Deus” (Ad Maiorem Dei Gloriam), que se traduz no serviço aos outros e na construção de um mundo mais justo. A espiritualidade inaciana transforma a sala de aula em um lugar de discernimento, onde aprender é um ato de adoração e de compromisso com a realidade.
5. O Magis contra a exaustão: excelência não é performance
É necessário, contudo, distinguir o “Magis” inaciano da lógica de autodesempenho da “sociedade do cansaço” descrita por Byung-Chul Han. Enquanto Han denuncia um sistema onde o indivíduo se esgota em uma busca autorreferenciada por produtividade e sucesso individual – o “sujeito de desempenho” que se torna carrasco de si mesmo –, o Magis propõe o “mais” e o “melhor” como um movimento de saída de si. Na espiritualidade inaciana, a busca pela excelência não serve para inflar o currículo ou a autoimagem, mas para ampliar a capacidade de serviço: busca-se o mais para amar e servir melhor. Enquanto a performance de Han gera solidão e burnout, o Magis gera ressonância e sentido, pois não pergunta “o quanto eu aguento produzir”, mas “como posso tornar minha vida um dom mais pleno para a Maior Glória de Deus e o bem do próximo”. Assim, a espiritualidade na escola atua como um antídoto à exaustão contemporânea, reorientando o esforço humano da eficácia vazia para a fecundidade do propósito.
6. A arquitetura do sentido no crescimento
A capacidade de atribuir sentido evolui com a idade. Na infância, a espiritualidade é confiança básica. Na adolescência, o questionamento e a dúvida são sinais de amadurecimento. O erro de muitas abordagens tradicionais é sufocar a dúvida com respostas prontas. Educar para a interioridade, sob a ótica inaciana, é oferecer ferramentas para que o jovem desenvolva um “lugar interior” de discernimento, aprendendo a ler os sinais da vida com sabedoria.
Este amadurecimento exige paciência pedagógica. Não se pode impor uma espiritualidade adulta a uma criança, nem uma visão infantilizada a um jovem. A arquitetura do sentido deve ser construída respeitando os tempos de reflexão, permitindo que o aluno se sinta seguro para explorar suas crises existenciais. Quando a escola acolhe a dúvida como parte do processo educativo, ela fortalece a resiliência emocional do estudante contra as pressões externas da sociedade de consumo.
7. Narrativas contra a fragmentação digital
O jovem atual habita um ecossistema de fragmentos. A escola precisa atuar como um laboratório onde as ciências, as artes e a literatura sejam apresentadas como grandes aventuras humanas. Ao resgatar a capacidade de contar a própria história (biografia), o aluno deixa de ser um consumidor de informações para tornar-se um sujeito que habita o seu tempo com profundidade, conectando sua pequena história à Grande História da Criação.
A fragmentação digital, acelerada pela ditadura do “clique” e da imagem instantânea, corrói a capacidade de narrativa linear. Sem narrativa, a vida perde a continuidade e o propósito. Ao incentivar o registro, a escrita reflexiva e o estudo de biografias inspiradoras, a educação ajuda o aluno a tecer os fios de sua própria identidade. Esse exercício narrativo é um ato de resistência espiritual: é o que permite ao jovem dizer “eu sou” em meio a um oceano de dados que tentam dizer apenas “você deve”.
8. Educação do desejo e resistência à exaustão
Educar não é apenas transmitir dados, é educar o desejo. Em uma sociedade de consumo que bombardeia a juventude com necessidades artificiais, a espiritualidade oferece o contraponto do discernimento. A esperança, aqui, não é passividade, mas a energia para construir o futuro. Trabalhar o sentido da vida é oferecer ao jovem caminhos de contribuição social e vivência estética, combatendo o vazio existencial que alimenta os índices crescentes de sofrimento psíquico.
Educar o desejo significa ensinar a distinguir entre o “querer” imediato e o “anelar” profundo. Enquanto o mercado quer que o desejo do jovem seja insaciável e voltado para objetos, a espiritualidade redireciona esse desejo para a transcendência e para o bem comum. Essa reorientação é a melhor defesa contra o burnout precoce, pois ensina que o valor de uma pessoa não está atrelado à sua capacidade de satisfazer apetites momentâneos, mas à sua capacidade de amar e ser amado.
9. O(a) professor(a) como guardião(ã) da interioridade
Ninguém comunica o que não cultiva. Para que a escola tenha alma, o professor precisa de qualidade de vida e espaço interior. A docência não pode ser reduzida a uma tarefa mecânica. O sistema educacional precisa valorizar o descanso e o silêncio do docente. Quando a instituição reconhece a finitude e a dignidade do professor, cria um ambiente onde o aluno também aprende a ser humano e a buscar o “Magis” – o sempre mais e melhor em prol do bem comum.
Um professor exausto dificilmente conseguirá inspirar profundidade. A “sociedade do cansaço” atinge o corpo docente de forma devastadora, transformando mediadores de conhecimento em técnicos de produtividade. É imperativo que as instituições promovam momentos de parada e cuidado espiritual para seus colaboradores. Somente um guardião da interioridade, que conhece seus próprios limites e fontes de sentido, pode guiar o aluno no labirinto da contemporaneidade sem se perder no vazio da exaustão.
Conclusão: por uma pedagogia da presença
No horizonte da educação brasileira do século XXI, a questão fundamental transcende a técnica: queremos organizar a escola em função do que o ser humano produz ou em função do que ele é? Se escolhermos a primeira via, a “sociedade do cansaço” continuará a fazer das salas de aula lugares de exaustão, onde o burnout docente e a apatia discente são a norma. Se escolhermos a segunda, o resgate da espiritualidade e da interioridade torna-se o único caminho possível para uma formação verdadeiramente integral.
A superação desse cenário exige um pacto de honestidade entre escola e família. A espiritualidade não pode ser uma “mercadoria” terceirizada por pais ausentes, nem um instrumento de ideologias político-religiosas que estreitam o horizonte da fé. Pelo contrário, inspirada pela pedagogia inaciana, a escola deve ser o espaço onde o aluno aprende a “buscar e encontrar Deus em todas as coisas” – uma busca que se traduz na descoberta de que o conhecimento, a ética e o serviço ao próximo são faces de uma mesma moeda.
Neste modelo, o esforço não é um peso que esmaga, mas um “Magis” que liberta. O descanso não é luxo, mas o tempo necessário para que a liberdade aprenda a dizer o seu nome e para que o sentido da vida floresça. Ao amarrar a excelência acadêmica ao propósito espiritual, a escola deixa de ser um campo de treino para o mercado e torna-se um lugar de epifania. Uma escola com alma, enfim, é aquela que não apenas prepara o jovem para o futuro, mas o ensina a habitar o presente com profundidade, transformando cada ato de aprender em um compromisso com a Maior Glória de Deus e com a plena humanização do mundo.
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