A trajetória de Gustavo da Costa no Colégio Anchieta, em Porto Alegre (RS), começou em 2016, quando ingressou como professor de Ensino Religioso do 9º ano. Desde então, sua caminhada na instituição foi marcada pelo aprofundamento na espiritualidade e na pedagogia inacianas: em 2017, assumiu algumas turmas do Ensino Médio, na disciplina de Filosofia; em 2018, iniciou como professor de Ensino Religioso do 8º ano e no Grupo de Voluntariado, além de participar do Projeto de Iniciação Cristã, sendo catequista de Crisma. Em 2019, recebeu o convite para integrar o Serviço de Orientação Religiosa, Espiritual e de Pastoral (Sorep), ficando como responsável pelo 6º ano. “Essa foi uma oportunidade muito significativa na minha carreira e me aproximou ainda mais da Espiritualidade Inaciana, a qual sempre me gerou encantamento”, recorda.
Hoje, Gustavo segue como professor do 9º ano e coordenador do Sorep do 8º ano. Essa vivência inspirou o artigo O voluntariado nos caminhos da formação integral, desenvolvido na Especialização em Educação Jesuítica da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no qual reflete sobre a importância do projeto Ações Solidárias – Voluntariado na construção dos Projetos de Vida dos estudantes e na promoção da formação integral proposta pela educação jesuíta. Confira a entrevista completa abaixo:
O que o motivou a investigar o voluntariado como caminho para a formação integral dos estudantes?
Desde 2017 e 2018, quando conheci e comecei a participar mais ativamente do voluntariado, sempre guardei uma paixão especial por esse projeto. Ao longo das semanas, acompanhando os estudantes nas saídas de campo e em sala de aula, ficava evidente o impacto que esse projeto gera na vida de quem, genuinamente, se entrega de corpo e alma a ele. Ao longo desses anos, reuni depoimentos lindos e emocionantes de estudantes e famílias a respeito do impacto do voluntariado na formação dos nossos estudantes. Alguns deles vieram de estudantes com questões importantes de comportamento em sala de aula e com baixo desempenho acadêmico, mas que desempenhavam um trabalho ímpar junto às crianças, adolescentes e idosos atendidos pelo voluntariado.
Quando recebi o convite para participar da especialização, não tive dúvidas: esse projeto precisava receber mais enfoque! Precisávamos olhar para ele de forma diferente! Não basta apenas alguns alunos terem acesso e guardarem esse “tesouro” para si. Precisamos ampliar e fortalecer esse projeto para que mais estudantes possam transformar realidades e terem suas vidas transformadas pelo voluntariado. No que tange ao Paradigma Pedagógico Inaciano (PPI), na minha concepção, o voluntariado é um espaço profundamente transformador, no qual os estudantes têm a oportunidade de viver uma experiência muito rica.
Em sua pesquisa, os estudantes relatam impactos do voluntariado na construção dos seus Projetos de Vida. Que percepções ou aprendizados mais chamaram sua atenção durante as entrevistas?
Chama minha atenção o relato de estudantes que percebem um desenvolvimento pessoal em áreas como comunicação, liderança, protagonismo e organização pessoal. O projeto possibilita que os estudantes coloquem a mão na massa e protagonizem ações que geram impactos de diferentes naturezas nos espaços em que atuamos. Lembro com carinho de um estudante chamado Gabriel, que foi uma grande liderança no grupo. Hoje, formado em Administração – GIL (Gestão para Inovação e Liderança), pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, trabalha liderando equipes em diferentes contextos, mas mantém um contato muito próximo com o Colégio Anchieta, auxiliando nos projetos e retiros para atuais e antigos alunos.
Você destaca a importância da experiência no processo educativo. Como as vivências proporcionadas pelo voluntariado contribuem para uma aprendizagem que vai além da sala de aula?
A sala de aula é um ambiente em que, de forma geral, prepondera a teoria. O voluntariado, por sua vez, é um verdadeiro laboratório de empatia, protagonismo, cuidado e cidadania. Quando o estudante experimenta a alegria de perceber que pode ser útil, de mudar a vida de alguém, quando recebe um sorriso, um abraço ou um “muito obrigado” de quem ajuda – por vezes com coisas simples – isso não tem preço. Isso se torna, muitas vezes, um marco profundamente transformador na vida desse(a) estudante. Essa transformação reverbera no Colégio, na família e em todos os outros espaços pelos quais ele transita.
De que forma o projeto dialoga com os princípios da educação inaciana e com a proposta de formação integral da Rede Jesuíta de Educação?
O projeto de voluntariado dialoga profundamente com os princípios da educação inaciana e com a proposta de formação integral da Rede Jesuíta de Educação ao promover experiências concretas de serviço, empatia, reflexão e compromisso social. Inspirado na pedagogia inaciana, o voluntariado possibilita que os estudantes desenvolvam não apenas competências acadêmicas, mas também dimensões humanas, espirituais, afetivas e sociais.
A experiência do encontro com o outro, especialmente com pessoas em situação de vulnerabilidade, favorece a formação de sujeitos conscientes, competentes, compassivos e comprometidos – valores centrais da tradição educativa jesuíta. Além disso, o projeto incentiva o discernimento, a capacidade de leitura crítica da realidade e o protagonismo juvenil diante dos desafios sociais contemporâneos. Ao unir ação e reflexão, o voluntariado também concretiza elementos fundamentais do Paradigma Pedagógico Inaciano, como a experiência, a reflexão e a ação transformadora. Dessa forma, contribui para a formação integral dos estudantes, fortalecendo valores como solidariedade, justiça, cuidado com a dignidade humana e construção do bem comum, em sintonia com a missão educativa da Rede Jesuíta de Educação.
A pesquisa aponta a possibilidade de ampliar o voluntariado para todos os estudantes do Ensino Médio, integrando-o ao currículo. Quais seriam os principais ganhos dessa proposta?
A ampliação do voluntariado para todos os estudantes do Ensino Médio, integrada ao currículo, pode gerar ganhos significativos tanto para a formação dos alunos quanto para a própria comunidade escolar. Entre os principais benefícios, destaca-se o fortalecimento da formação integral, promovendo o desenvolvimento de competências socioemocionais como empatia, responsabilidade, escuta, liderança, cooperação e sensibilidade social. Além disso, a integração curricular do voluntariado favorece uma aprendizagem mais significativa, ao conectar os conteúdos acadêmicos com situações reais da sociedade. Os estudantes passam a compreender de forma mais concreta temas ligados à cidadania, justiça social, direitos humanos e cuidado com o outro, tornando-se protagonistas de ações transformadoras.
Outro ganho importante é o fortalecimento da identidade inaciana da escola, uma vez que o serviço ao próximo, o compromisso com a justiça e a formação de pessoas conscientes e comprometidas fazem parte da missão educativa jesuíta. O voluntariado também contribui para o senso de pertencimento e para a construção de uma cultura escolar mais solidária, colaborativa e humanizada. Por fim, ao vivenciarem experiências contínuas de serviço e reflexão, os estudantes desenvolvem uma visão mais crítica e ética da realidade, preparando-se não apenas para o mundo acadêmico e profissional, mas também para exercer uma cidadania ativa e comprometida com o bem comum.

