Há nove anos, Allana Cunha Batista integra a comunidade educativa da Escola Santo Afonso Rodriguez (Esar), em Teresina (PI), onde atua como professora de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental e de Redação no Ensino Médio. Ao longo desse período, a formação continuada e a vivência da educação jesuíta ampliaram o seu compromisso com a formação integral dos estudantes. Essa experiência inspirou o artigo A descentralização dos papéis educador-educando: uma formação integral na perspectiva jesuíta, desenvolvido na Especialização em Educação Jesuítica da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no qual ela reflete sobre o protagonismo dos estudantes e a construção de uma aprendizagem comprometida com o senso crítico, o engajamento e a transformação da realidade.
Confira, abaixo, a entrevista completa:
O que a motivou a desenvolver o artigo A descentralização dos papéis educador-educando: uma formação integral na perspectiva jesuíta?
O desenvolvimento desse artigo foi motivado pelo meu desejo de compreender mais profundamente a proposta da educação jesuíta e sua contribuição para a formação integral dos estudantes. Durante minha atuação na Escola Santo Afonso Rodriguez, percebi que o processo educativo vai muito além da transmissão de conteúdos: ele busca formar pessoas conscientes, competentes, compassivas e comprometidas com a transformação da sociedade.
Além disso, foi por meio da especialização Educação Jesuítica: Aprendizagem Integral, Sujeito e Contemporaneidade que pude aprofundar meu interesse por esse tema. O curso ampliou minha compreensão sobre os fundamentos da pedagogia inaciana e fortaleceu minha reflexão acerca da formação integral e do protagonismo do estudante no processo de ensino e aprendizagem.
Compreendi que o professor assume o papel de mediador e orientador, enquanto o estudante torna-se protagonista da construção do próprio conhecimento. Essa perspectiva, fundamentada no Paradigma Pedagógico Inaciano, motivou-me a pesquisar e aprofundar esse tema, evidenciando a importância de uma educação que valoriza todas as dimensões do ser humano.
No seu trabalho, você propõe uma descentralização dos papéis de educador e educando. O que esse conceito significa na prática e como ele pode transformar o processo de aprendizagem?
A descentralização dos papéis de educador e educando significa compreender que o processo de ensino e aprendizagem não está centrado exclusivamente no professor como transmissor do conhecimento. Na perspectiva da pedagogia inaciana, o professor atua como mediador, orientador e acompanhante do processo educativo, enquanto o aluno assume um papel ativo, tornando-se protagonista da construção do próprio conhecimento.
Na prática, isso acontece quando o estudante é incentivado a refletir, questionar, participar das discussões, relacionar os conteúdos com sua realidade e assumir responsabilidades pelo seu aprendizado. O professor, por sua vez, cria situações de aprendizagem significativas, acompanha o desenvolvimento do aluno e o ajuda a desenvolver não apenas competências acadêmicas, mas também valores humanos, éticos, sociais e espirituais.
Essa mudança transforma o processo de aprendizagem porque torna o aluno mais autônomo, crítico e comprometido com sua formação. Além de aprender os conteúdos curriculares, ele desenvolve a capacidade de discernir, tomar decisões responsáveis e agir de forma consciente na sociedade. Dessa maneira, a aprendizagem deixa de ser apenas uma transmissão de informações e passa a ser um processo de formação integral, no qual educador e educando caminham juntos na construção do conhecimento e do desenvolvimento humano.
Como o Paradigma Pedagógico Inaciano (PPI) e o Projeto Educativo Comum (PEC) contribuem para a formação de estudantes mais críticos, autônomos e comprometidos com a transformação da sociedade?
O Paradigma Pedagógico Inaciano (PPI) e o Projeto Educativo Comum (PEC) contribuem para a formação de estudantes mais críticos, autônomos e comprometidos ao proporem uma educação centrada na pessoa e em seu desenvolvimento integral. Ambos compreendem que educar vai além da transmissão de conteúdos: significa formar seres humanos capazes de refletir sobre a realidade, tomar decisões conscientes e agir de forma ética e solidária.
O PPI orienta o processo educativo por meio de cinco etapas — contexto, experiência, reflexão, ação e avaliação — que levam o estudante a relacionar os conhecimentos adquiridos com sua própria realidade. Esse percurso favorece o desenvolvimento do pensamento crítico, do discernimento e da autonomia, pois o aluno é incentivado a analisar situações, questionar, construir seus próprios argumentos e assumir um papel ativo em sua aprendizagem.
Já o PEC reforça essa proposta ao destacar que a missão da educação jesuíta é formar pessoas conscientes, competentes, compassivas e comprometidas. Assim, além do desenvolvimento acadêmico, valoriza-se a formação ética, espiritual, social e humana, preparando os estudantes para exercer a cidadania, respeitar as diferenças e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Na prática, essa proposta transforma o ambiente escolar em um espaço de diálogo, participação e corresponsabilidade, no qual professor e aluno aprendem juntos. O professor atua como mediador e orientador do processo educativo, enquanto o estudante assume o protagonismo de sua formação, tornando-se capaz de utilizar o conhecimento para promover mudanças positivas em sua comunidade e na sociedade.
Quais foram os principais aprendizados que a pesquisa trouxe para a sua própria prática como educadora?
A pesquisa trouxe como principal aprendizado a compreensão de que a prática educativa precisa estar em constante construção e reflexão. Ela possibilitou perceber que o papel do educador vai além da transmissão de conteúdos, envolvendo a formação integral dos estudantes, o incentivo à autonomia, ao pensamento crítico e ao compromisso com a transformação da realidade.
Além disso, a pesquisa reforçou a importância de conhecer cada estudante em sua individualidade, valorizando suas experiências, necessidades e potencialidades. Na minha prática como educadora, esse aprendizado contribuiu para repensar metodologias, fortalecer a escuta ativa e buscar estratégias que tornem o processo de ensino e aprendizagem mais significativos e humanizado.

