Dizer um “não” ao filho é, muitas vezes, um tormento para os pais. O ato, entretanto, é fundamental para a formação de um ser maduro, sociável e que saberá lidar com frustrações no futuro. Rita Bourlakov Mangieri, mãe de uma criança e um pré-adolescente, reconhece o limite como algo construtivo e necessário: “O ‘não’ é punitivo, e muitos pais temem dizer ‘não’ aos filhos porque têm receio de frustrá-los. Mas é justamente o contrário, porque o ‘não’ desenvolve e desperta nas crianças que a vida tem regras”, afirma Rita.
O psicólogo e doutor em Ciência da Educação Alessandro Marimpietri ressalta a importância do limite na educação: “O limite é uma espécie de referência simbólica para a criança. É dizer para a criança que, durante um tempo da vida dela, ela não tem condição de se organizar sozinha e que vai precisar de um adulto que lhe dê essas marcas de possibilidade e de impossibilidade, de um incentivo e de limite, ou seja, a gente vai ensinando a uma criança qual é essa fronteira que circunscreve a sua existência”.
Rita defende que o “não” orienta as crianças: “Elas não podem fazer tudo o que querem. Se a criança não tem limite, ela não terá limite na vida, não vai respeitar regras, autoridades, nem terá controle emocional. Quantos ‘nãos’ elas vão receber na vida? Mas nem por isso vão desistir. Vão receber um ‘não’ numa entrevista profissional ou vão levar um ‘não’ da pessoa que gostam. E aí, a vida vai parar por isso?”, questiona a mãe de Enzo e Valentina.
ROTINA
Para conseguir impor limites aos filhos, então, a criação da rotina é um elemento fundamental. Michele Duarte, mãe de Francisco e Lisa, adota em casa uma rotina para os filhos: “Temos uma rotina diária muito bem definida, mas foi necessário muita conversa, paciência e persistência para que eles entendessem a importância dessa organização. Como é indispensável, por exemplo, que acordem mais cedo, por conta da escola, percebi a necessidade de irem dormir também bem mais cedo no dia anterior. No início, eles foram bastante resistentes, mas, de forma objetiva e clara, expliquei o quão importante é, para a saúde e o desenvolvimento cognitivo, ter um sono de qualidade”.
Marimpietri confirma que a adoção de uma rotina está diretamente ligada à adoção de limites. Além disso, a rotina deixa a criança mais tranquila e segura: “A rotina é estruturante para o desenvolvimento saudável da criança em todos os níveis. Porque a rotina dá ordem de previsibilidade da vida à criança. A criança tem recursos cognitivos diferentes dos recursos de um adulto, principalmente quando ela é pequena. Então, para ela fazer previsibilidade sobre a vida e ter uma segurança e tranquilidade, a rotina ajuda muito”.
LIMITE E LIBERDADE
O professor Anderson Rafael, diretor acadêmico do Colégio Antônio Vieira – onde estudam Enzo e Valentina, assim como Francisco e Lisa –, diz que o limite não deve ser compreendido como uma barreira ou um impedimento: “É um processo de amadurecimento humano e de compromisso consigo mesmo e com os outros”.
Anderson recorre à música Há tempos, da banda Legião Urbana, para sustentar sua ideia: “Em um de seus versos, Renato Russo afirma: ‘disciplina é liberdade’. Essa frase sintetiza bem a ideia de que o reconhecimento e o respeito aos limites não nos aprisionam, mas, ao contrário, nos organizam e potencializam”. “Dessa forma, entendo que precisamos trabalhar com os estudantes a compreensão dos limites, para que cada um possa explorar ao máximo suas capacidades e, assim, amadurecer como pessoa”, defende.
O diretor acadêmico destaca que, no Vieira, a presença de limites nas interações com os estudantes é compreendida como parte essencial do processo educativo, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e coletivo: “Educamos na perspectiva da formação integral e do pleno crescimento da pessoa”, diz. “Este objetivo de ação move o estudante à autodisciplina e à iniciativa, à integridade e ao esmero”, completa o diretor, citando o padre Hans Kolvenbach SJ sobre a Pedagogia Inaciana. “Buscamos, então, formar sujeitos críticos, pois, como também nos ensina Paulo Freire, a educação tem, em sua essência, a liberdade. Nesse sentido, não há lugar para práticas autoritárias no processo educativo. Trabalhamos para formar sujeitos pensantes, pessoas livres em seu ato de refletir, escolher e agir com responsabilidade”, afirma o professor.
Marimpietri frisa que há uma diferença entre autoridade e autoritarismo: “Autoridade tem a ver com limite; mas autoritarismo, não. Autoridade é um pacto simbólico, que é estabelecido entre as pessoas envolvidas”. Segundo o psicólogo, um pai pode ter autoridade sem ser rude nem violento, e essa autoridade pode ser conquistada ganhando a confiança da criança. “O pai pode dizer: ‘eu sou seu pai e eu sei de coisas que você não sabe. Tenho funções que você não tem e vou proteger você de coisas que são necessárias’”. O autoritarismo, no entanto, vai na contramão da autoridade: “Quando há autoritarismo, não há limite, não há afeto, não há autoridade”, revela o psicólogo.
PALMADINHA E CASTIGO: O QUE DIZEM A LEI E MARIMPIETRI
No passado, muitos pais recorriam às palmadas para, supostamente, educar os filhos e lhes impor limites. A prática, hoje proibida pela Lei 13.010/2014, tem sido aos poucos abolida pela sociedade. O psicólogo e doutor em Ciência da Educação Alessandro Marimpietri é veemente na crítica a este ato e reflete sobre as sequelas que a violência impõe: “A palmada é o ‘game over’, o fim da linha. É o silenciar da palavra, a brutalidade extrema. É a marca do autoritarismo, uma covardia, uma violação. Não há vantagem alguma: quando o elemento coercitivo sai, a criança fica cheia de comprometimento psíquico”.
Alguns pais, entretanto, ainda recorrem ao castigo como ferramenta de educação, mas Marimpietri não vê efeitos positivos neste tipo de punição: “O castigo não muda o comportamento, a não ser na vigência da ameaça. O que muda comportamento é ter bom exemplo e ter boa narrativa”.
SANÇÕES POSSÍVEIS
O psicólogo defende que sanções proporcionais e recíprocas, no entanto, podem ser aplicadas pelos pais e ter efeito positivo: “Se sujou, vai limpar; se destratou alguém, retrate-se; se não comer brócolis, não vai ter sobremesa. Este tipo de sanção mostra à criança que há uma estrutura na vida que precisa ser seguida”.
DIÁLOGO
Um elemento fundamental para se conquistar a autoridade é o diálogo, segundo Marimpietri. E não há uma idade mínima para a conversa com a criança: “Devemos conversar com ela antes mesmo de seu nascimento, porque somos um tipo de ‘bicho’ cuja existência precede o nascimento. Precisamos conversar com a criança desde sempre porque o diálogo é um plano simbólico. É preciso olhar para a criança, reconhecê-la como parte do meu campo afetivo e de nossa coletividade. Isso é fundamental para a existência da criança”.
Michele diz que conversa diariamente com os filhos sobre limites: “Deixo claro o limite de atuação que o outro pode exercer sobre eles e que eles precisam, quando necessário, estabelecer limites quanto a isso. E conversamos também sobre onde exatamente termina a possibilidade de atuação deles na vida do outro, desenvolvendo, dessa forma, desde cedo, o senso de respeito e boa convivência em sociedade”.
O professor Anderson Rafael diz que, no Vieira, o diálogo com os pais e estudantes é exercido rotineiramente. Em eventos promovidos pela Associação de Pais e Mestres e pela escola, o próprio Marimpietri conduziu rodas de conversa no colégio, entre outras ações. O diretor acadêmico revela a intenção de ampliar ainda mais esse movimento, envolvendo pais, estudantes e educadores, com o objetivo de também refletir sobre a disciplina no ambiente escolar. “Acreditamos que, por meio de uma escuta plural, respeitosa e qualificada, poderemos construir caminhos mais eficazes e duradouros, capazes de promover uma convivência mais consciente e responsável”.
Fonte: Matéria publicada na edição de nº 17 da Revista Vieira+: https://www.colegioantoniovieira.com.br/lancada-edicao-2026-da-revista-vieira/#flipbook-df_128341/1/

