Por Pe. Francys Silvestrini Adão, SJ, provincial dos jesuítas do Brasil. Texto baseado no artigo publicado no Palavra e Presença da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje) Por uma Teologia Dialogal: reflexões a partir de Os sete saberes necessários à educação do futuro, de E. Morin – Portal Faje, e publicado na edição de nº 17 da Revista Vieira+, do Colégio Antônio Vieira, em Salvador (BA).
Já não é novidade para ninguém: vivemos em um mundo que provoca mudanças culturais e civilizacionais em ritmo acelerado. A cada momento, surgem novas concepções e propostas a respeito do conhecimento, da educação, do ser humano e, também, de Deus. Nesta transformação coletiva, multidimensional e global, a fé cristã teria ainda uma contribuição a dar, a partir do que lhe é próprio? A tradição educativa da Companhia de Jesus seria capaz de continuar a oferecer uma palavra pertinente e relevante para as famílias de nosso tempo?
Tudo dependerá, certamente, de nossa capacidade de, primeiramente, escutar anseios, buscas, sonhos e preocupações de mulheres e homens, de crianças, jovens e idosos, de diferentes etnias e classes sociais e, a partir disso, à luz da prática de Jesus, suscitar nas pessoas um desejo de enraizamento humano e abertura ao Mistério. Trata-se de pensar a vida e a fé em relação íntima com as pessoas concretas, seus desafios e suas interrogações existenciais.
Esta necessidade de conjugar enraizamento e abertura não é estranha ao pensamento contemporâneo. Em um pequeno livro chamado “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, Edgar Morin, recentemente falecido, quis provocar a imaginação criativa de seus leitores. O novo paradigma de conhecimento apresentado por ele é o da complexidade.
Essa concepção defende que todo ser humano, todo grupo sociocultural, toda disciplina científica necessitam abrir-se ao outro, renunciando a encontrar, isoladamente, uma pretensa totalidade, seja de conhecimento, seja de sentido. Desde as questões epistemológicas às questões éticas, deve-se alargar a compreensão que o ser humano tem de si mesmo – e isso só é possível numa atitude de diálogo cada vez mais amplo com outros grupos e outras áreas de conhecimento.
DIÁLOGO
O saber da fé, desde muito cedo, buscou abrir-se a outras áreas, como a filosofia. Uma boa notícia é que essa abertura continua se expandindo: vemos, hoje, um diálogo da fé cristã com as ciências humanas e sociais, a poesia, a literatura e, mesmo, a gastronomia, por exemplo.
Há de se esperar também um maior diálogo com a sabedoria popular e, em contexto brasileiro, com as sabedorias de matriz indígena e africana. Esta abertura e este diálogo são, por si só, o caminho para formar homens e mulheres de fé capazes de acolher a própria humanidade e de amar o diferente.
Não se pode desprezar o papel formativo e educativo de uma fé madura e transformadora. Uma das críticas que alguns setores da sociedade fazem aos homens e mulheres de Igreja consiste em seu possível fechamento em suas próprias ideias e crenças.
É nesse contexto que cabe a pergunta: nosso serviço seria formar seres humanos cheios de “certezas” ou, mais propriamente, impactados pela itinerância da “fé”? Para passar da primeira à segunda opção, deve-se certamente passar de um modelo de “transmissão de conhecimento” a um outro que se compreenda como um encontro pessoal e comunitário com Alguém – o Senhor vivo – e a construção de um itinerário comum, em parceria com os homens e mulheres de boa vontade.
A melhor defesa da fé se manifesta na abertura e sensibilidade para com a vida concreta dos outros, à maneira de Jesus: nisso se fundamenta a tradição espiritual, intelectual e educativa da Companhia de Jesus. Muito mais conscientes de nossos próprios limites, mas também alegres pela companhia de tantos grupos distintos que buscam a verdade e o bem, a contribuição da fé cristã pode, hoje, continuar a colaborar com o surgimento de uma nova humanidade: inteiramente “encarnada” – como Jesus Cristo –, assumindo plenamente a singularidade de cada pessoa e grupo cultural, e intrinsecamente “relacional” – como a Trindade santa –, reconhecendo que a felicidade só pode ser encontrada quando nós reconhecemos, com gratidão, os dons recebidos e buscamos o bem do outro, celebrando a inesgotável riqueza de nossas diferenças em comunhão.

