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Que tal construir o futuro brincando?

Curiosas e atentas, as crianças percorriam os corredores da escola, animadas com a caça ao tesouro. Passavam entre as mesas repletas de brinquedos, entre as estantes de livros que tinham sua singela altura, seguiam pelo parque de eucalipto e curtiam cada minuto do que parecia ser só uma brincadeira. Solidárias umas às outras na missão de encontrar o objeto perdido, não imaginavam que ali havia uma pista sobre seu futuro.

Afinal, o que, para uns, pode parecer apenas um passatempo, para outros, significa o início da formação de um sujeito. “Ainda hoje existe a ideia de que a criança vai à escola ‘só para brincar’, mas essa fala desqualifica o brincar. Não há como dissociar o brincar da aprendizagem”, destaca a pedagoga Adriana Novis, mestre em Gestão Educacional e especialista em Psicopedagogia e Coordenação Pedagógica.

A partir das brincadeiras, livres ou com intencionalidade pedagógica, a criança vai experimentar, criar e aprender a lidar com o mundo à sua volta, explica Novis, que coordena a Educação Infantil e o 1º ano do Ensino Fundamental do Colégio Antônio Vieira. Segundo a profissional, “a brincadeira é um eixo estruturante para a educação na infância”, a linguagem principal da criança e, portanto, sua essência.

Por trás da diversão, existem ensinamentos. É por meio do brincar que a criança aprende, por exemplo, a dividir, a se frustrar, a respeitar o espaço e a se colocar no lugar do outro. A partir das vivências do dia a dia e do uso do espaço, são desenvolvidas habilidades cognitivas, emocionais, motoras e sociais. “Hoje em dia, percebemos que muitas crianças ainda estão aprendendo a lidar com frustrações – e isso faz parte do desenvolvimento de habilidades essenciais para a vida”, defende.

Estudos e pesquisas apontam que o brincar precisa permear a prática pedagógica no contexto da Educação Infantil e dos primeiros anos do Ensino Fundamental. A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que norteia a organização dos currículos de todas as escolas do Brasil, é formada por dois eixos estruturantes: as interações e a brincadeira. “Não existe, na Educação Infantil, brincar sem aprender e aprender sem brincar, pois eles devem estar profundamente conectados”, acredita Novis.

SER HUMANO INTEGRAL

Assim, o brincar torna-se uma peça fundamental, mesmo diante da expectativa de alguns pais por um conteúdo mais denso – como se, nessa fase da infância, o aprender fosse restrito às letras, ou seja, ao aprender a ler e a escrever. Não só o brincar, mas a formação centrada no sujeito, que olha o ser humano de forma integral, para além dos componentes curriculares exigidos. “Transmitir conteúdo, qualquer escola é capaz de fazer. Mas formar uma pessoa preocupada com o outro e com o meio ambiente, nem todas estão aptas”, pondera o bancário Antônio Feitosa, 46 anos, pai de um menino de 2 anos. Por isso, não pensou duas vezes ao descobrir que o colégio onde sua esposa estudou passaria a oferecer também a Educação Infantil para crianças de 2 a 5 anos.

“A decisão não foi de ir para uma escola, foi de ir para o Vieira”, frisa. Feitosa conta que optou pelo Vieirinha porque a instituição “se preocupa com a formação do indivíduo como um todo”, como ressalta. “Caso o colégio não abrisse o Infantil esse ano, Nina cogitou que o filho não estudaria agora. Concordei na hora”, conta, ao citar a decisão tomada com a esposa, a advogada Nina Feitosa, 48. Ex-aluna, Nina estudou no Vieira desde criança, além de ter irmão e primos que também são ex-alunos. “É uma relação de amor”, sorri. Hoje, 30 anos após ter concluído a Educação Básica, a advogada afirma que, quando surgiu a possibilidade de colocar seu filho, não teve dúvidas.

“A Educação Infantil defende a visão de aprender brincando, de estimular a autonomia, e vejo que o Vieira se preocupa em criar um ambiente de estímulo, onde a criança aprende explorando o espaço. Isso é importante porque a gente cria uma criança mais integrada, completa”, elogia Nina, ao citar o colégio que tem como pilares a Pedagogia Inaciana e a abordagem Reggio Emilia.

Enquanto a primeira tem a formação centrada no ser humano, a segunda tem o espaço como terceiro educador, em que a criança é vista como protagonista, curiosa e capaz de construir o conhecimento por meio da investigação à sua volta. Uma proposta que se alinha, portanto, à educação da Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada na Europa por Santo Inácio de Loyola e da qual faz parte o Vieira. A Pedagogia Inaciana olha o sujeito de forma integral, abrangendo não só o aspecto intelectual, mas também emocional, social e espiritual.

Nina acredita que esse olhar “é fundamental para o desenvolvimento da criança como ser humano”. “É claro que o conteúdo é importante e vai te fazer crescer profissionalmente, mas também a educação que respeita o diferente. Quero que meu filho busque o lugar dele no mundo sem passar por cima de ninguém, que consiga realizar o sonho dele com respeito, ética e amor pelos outros. O mundo está precisando mais disso”, deseja.

ESPAÇO FÍSICO COMO TERCEIRO EDUCADOR

Dizer que a sala de aula não é o lugar mais importante de uma escola, que o professor não é detentor de todo o conhecimento e que o espaço físico é um terceiro educador pode soar estranho para muita gente. Mas essas afirmações são um convite para deslocar o pensamento tradicionalmente associado ao ambiente de ensino. Isso significa repensar a hierarquia dos adultos, dos espaços e a autonomia das crianças. “Entre o espaço e o educador, há uma cultura que se forma e é formada pela participação das crianças, pelo modo como se organiza e arranja o espaço, pelos materiais ofertados, pelo papel que os adultos ocupam, por aquilo que se comunica interna e externamente”, explica o professor e educador Paulo Fochi, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), do Rio Grande do Sul.

Doutor em Educação, Fochi já atuou em diversos trabalhos junto ao Ministério da Educação, inclusive como um dos quatro consultores para a elaboração da Base Nacional Comum Curricular para a Educação Infantil (BNCC). Em sua avaliação, é fundamental repensar a centralidade do professor que controla o ritmo das atividades, anulando o desejo da criança como indivíduo. De acordo com o pedagogo, o espaço precisa ser visto como dispositivo pedagógico que mobiliza outra forma de organizar o tempo e as relações. “Ou seja, essa mudança na organização do espaço cria uma dinâmica menos verticalizada entre adultos e crianças e mais aberta aos processos de coconstrução do conhecimento”, afirma, em sua tese de doutorado, que também traz o brincar para além de um simples passatempo.

Essa mudança de paradigma é fundamental, na avaliação do servidor público federal Guilherme Pereira, 35, pai de um menino de 10 meses e uma menina de 5 anos, aluna do Vieirinha. “Se eu quero que minha filha cresça com autonomia, criatividade e iniciativa, a escola não pode ser um lugar onde ela apenas senta e escuta. Ver a criança como cocriadora do conhecimento é dar a ela a segurança necessária para enfrentar o mundo real lá fora”, acredita. “Aprender brincando é a base de tudo”, acrescenta Pereira, porque forma a criança de modo integral e dá autonomia para que possa descobrir o mundo por conta própria. Por isso, o servidor público e a esposa, Ana Luiza, desejam que a escola de sua filha “seja uma extensão de casa, um espaço menos vertical e mais humano, onde o professor e o aluno construam algo juntos”, diz. “Na verdade, o que eu quero mesmo é que minha filha saia preparada para a vida, sabendo que a opinião e a criatividade dela têm valor e fazem a diferença”, completa.

ESPAÇOS PARA EXPLORAR AS POTENCIALIDADES DA INFÂNCIA

A partir de como é organizado, o espaço convoca a criança a provocar hipóteses e processos de pesquisa. A arquitetura de uma escola precisa, portanto, de espaços mais horizontais que reflitam a descentralização do ensino, e é esta a proposta do espaço da Educação Infantil do Vieira. “Existe uma intencionalidade pedagógica que organiza esse espaço físico para dialogar com os valores e princípios propostos”, explica a pedagoga Adriana Novis.

Em sua avaliação, não deve existir uma hierarquização de espaços. “A sala de aula não é o único nem o mais importante espaço. Na Educação Infantil, a aprendizagem acontece em todos os ambientes, inclusive fora dela”, justifica. Foi a partir desse convite que as arquitetas Victoria Garcez e Daniela Melo desenvolveram o projeto do novo espaço dedicado às crianças de 2 a 5 anos, inaugurado em 2026.

Após muitas trocas com o Conselho Diretivo do Colégio Antônio Vieira e com o time pedagógico, as duas fizeram um mergulho profundo para traduzir, no projeto, um espaço que desse autonomia para a criança e a deixasse livre para explorar o mundo, aprender e ser quem ela é. Idealizado para estimular a curiosidade e a interação, o projeto foi pensado nos mínimos detalhes. Desde a altura da bancada, da estante de livros e do cabideiro de mochila, acessíveis às crianças, até a praça central, formada por ambientes de respiro que conectam as salas de aula a algo mais lúdico, convidativo e interativo: os parques de areia, eucalipto e água.

Inicialmente cogitado para ser um prédio de quatro andares, a unidade da Educação Infantil foi transformada pelas arquitetas em um espaço mais horizontal, ajustado para todas as idades da tenra infância. “A gente sempre colocou a questão pedagógica como norteadora do projeto, e a quantidade de andares não dialogava com a idade das crianças. Buscamos deixar o espaço o mais horizontal possível”, explica a arquiteta Victoria Garcez, sobre a valorização do protagonismo da criança, a partir de um ambiente cheio de texturas e seguro para ser explorado.

Filhas de psicopedagogas, as arquitetas que assinam o projeto destacam que o apoio da arquiteta e ex-aluna Isadora Suerdieck foi essencial, assim como se colocar no lugar das crianças para interpretar esses espaços. Como a criança gostaria de entrar na escola? De mãos dadas com os pais, portanto nada de catraca na entrada. Como se sentiria bem naquele ambiente? Com cores, é claro, mas não tão fortes para não ofuscar a verdadeira protagonista.

“Essa é a primeira visão de mundo, o ambiente de primeira socialização da criança. A gente precisa pensar nesse emocional também”, justifica Victoria Garcez, que é mãe de um garoto de 5 anos. Daniela, por outro lado, que estudou em uma “escola cinza” na infância e pediu à mãe para sair daquele ambiente árido, reforça que pensar em como a criança se sente nesses espaços é fundamental. “O mundo mudou, e hoje o que importa não é mais ‘eu quero uma escola apenas para meu filho passar no vestibular’. O objetivo final é educar essa criança nessa minissociedade que é a escola. O processo precisa ser interessante, e o Vieira sai na frente ao olhar para esses espaços de forma sensível e cuidadosa”, conclui Daniela.

Fonte: Matéria publicada na edição de nº 17 da Revista Vieira+: https://www.colegioantoniovieira.com.br/lancada-edicao-2026-da-revista-vieira/#flipbook-df_128341/1/ 

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