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Consumismo em tempos de influenciadores digitais

Quem faz parte de qualquer rede social na internet, com certeza, é bombardeado diariamente por anúncios feitos por empresas ou “publis” (publicidade de produtos e serviços) realizadas pelos influenciadores digitais. E, se for seu caso, leitor, pode confessar: quantas vezes usou somente uma vez algo que comprou? Ou, pior: talvez nunca sequer tenha experimentado aquele item e se arrependeu de ter gastado seu suado dinheirinho naquela inutilidade.

Muitas vezes, um produto que se usou pouquíssimo acaba logo sendo descartado e trocado por um outro item anunciado como a novidade da vez, e isso aumenta a poluição ambiental. Para se ter uma ideia do que se produz de lixo, de acordo com o Fórum Internacional de Resíduos de Equipamentos Eletrônicos, cerca de cinco bilhões de telefones celulares foram descartados no mundo em 2022. Estima-se que o Brasil produz anualmente cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico, o que leva o país à quinta posição no ranking internacional. À frente do Brasil estão, pela ordem, China, Estados Unidos, Índia e Japão.

A estudante Adriana Gregorcic Villa diz que tem se controlado para evitar compras impulsivas: “Noto que me desvinculei muito do hábito da compra impulsiva quando me distanciei de certos influencers nas redes sociais e busquei conhecer melhor minhas preferências. Afinal, hoje em dia sabemos que cada campanha e cada feed são milimetricamente calculados para nos despertar interesse e desejo”.

Já Alice Lelis, também estudante, ressalta que hoje os consumidores são cada vez mais influenciados a comprar e descartar sem pensar no meio ambiente. “Por isso, é cada vez mais importante que se realizem iniciativas de conscientização a respeito do processo de produção de cada coisa que usamos. Quando finalmente me dei conta de que as coisas não brotam das árvores e chegam aos shoppings, comecei a pensar mais sobre como consumir”, revela.

Alice é uma das integrantes do NAV, o Núcleo Ambiental do Colégio Antônio Vieira, criado em 2008 e que se dedica a discussões e reflexões sobre as questões ambientais. Já Adriana integra outra iniciativa de protagonismo estudantil da escola: o Núcleo Acadêmico de Finanças e Economia (Nafe), que discute temas de reciclagem de materiais, desfile ecológico e distribuição de mudas. “A ideia de que consumo traz felicidade não é real, porque nunca vamos estar verdadeiramente satisfeitos e sempre vamos querer mais. É claro que não podemos deixar de consumir, mas precisamos ter consciência para saber consumir melhor”, defendem as estudantes.

Para Alice, há algumas formas de escapar do estímulo ao consumo desenfreado: “As redes sociais pertencem a grandes empresas e têm o lucro como objetivo. Então, se aproveitam da imaturidade dos jovens”, alerta, ressaltando a importância de disseminar o conteúdo das aprendizagens das salas de aula e ações dos núcleos, além de adotar novas posturas, como evitar seguir muitos influenciadores, celebridades e páginas comerciais.

Clara Aang, que também integra o NAV do Vieira, acredita em consumo responsável, mesmo com tanta pressão das redes sociais: “Precisamos pensar duas vezes antes de comprar algo e nos fazer algumas perguntas antes da aquisição: eu realmente preciso disso? Ou só estou comprando por impulso? Será que estou apenas seguindo uma tendência ou realmente existe um sentido para esta compra?”, questiona Clara.

EXCESSOS E TENDÊNCIAS

Professora de Biologia e Ciências do Vieira e uma das articuladoras do NAV, Cynthia Marques reconhece a pressão que as redes sociais exercem sobre seus usuários, especialmente os mais jovens: “Essas ferramentas estimulam excessos, e isso está muito presente no cotidiano dos adolescentes. Plataformas como Instagram e TikTok operam com algoritmos que impulsionam tendências, despertam desejos imediatos e vinculam pertencimento ao que é exibido. O resultado é uma pressão sutil para estar ‘atualizado’, adquirir o que está em evidência e compartilhar isso”.

Segundo a professora, o NAV promove importantes discussões para despertar consciência nos jovens consumidores: “Os integrantes aprendem, por exemplo, a priorizar produtos duráveis, apoiar pequenos produtores, evitar descartáveis, reutilizar materiais e questionar a real necessidade de cada compra. Também desenvolvem projetos práticos, como campanhas de redução de resíduos e ações de educação socioambiental”. “Mais do que teoria, buscamos coerência: pequenas atitudes, quando somadas, geram mudanças reais. A ideia não é abrir mão do conforto, mas adotar um estilo de vida mais equilibrado, ético e sustentável”, acrescenta a professora.

NAFE

O Núcleo Acadêmico de Finanças e Economia (Nafe) é outro grupo de protagonismo estudantil do Vieira. O planejamento financeiro e o uso consciente do dinheiro são questões sempre abordadas nos encontros entre os integrantes. Adriana Gregorcic diz que, desde que começou a participar do Nafe, tornou-se menos consumista: “Mas ainda sou. Hoje, porém, tenho plena noção de que muito do que tenho e almejo não parte de uma real necessidade, mas muito de uma vontade de pertencimento, seja em relação a experiências, como viagens, restaurantes, até bens materiais”.

Na internet, Adriana evita comprar em sites de “fast fashion” (um padrão de produção e consumo no qual os produtos são fabricados, consumidos e descartados rapidamente). “Nas redes, estamos cada vez mais conectados e cheios de informações e ofertas a todo momento. Logo, se torna muito mais difícil não consumir, porém muito mais fácil ser consciente em relação a desastres naturais e sociais resultados das compras exageradas”, afirma a estudante.

Diante de tanto estímulo ao consumo, os jovens precisam aprender a organizar bem suas finanças e fazer uma reserva para o futuro, em vez de gastar sem planejamento. Para contribuir nesse processo, o professor Carlos Magno, mediador do Departamento de Biologia do Ensino Médio e que tem especialização em Educação Financeira, se reúne com os integrantes do Nafe regularmente, às sextas-feiras, atuando como articulador do núcleo junto aos estudantes.

VALOR E PREÇO

“Com a educação financeira, os jovens têm ideia do valor do dinheiro e percebem que as coisas têm um valor, acima de terem um preço”, afirma Carlos. O professor defende que os adolescentes recebam uma mesada, que se torna um instrumento para a educação financeira: “Assim, o adolescente passa a ter noção de como pode resolver as demandas ao longo de 30 dias”, diz.

O estudante Leo Alves passou a integrar o Nafe há cerca de um ano e diz que mudou seu modo de consumir nesse período: “Depois de um certo tempo, você cria autodisciplina e percebe o que é bom e o que é ruim. Nem tudo o que está no mercado pode te ajudar”. Leo diz que também está consciente da importância de planejar o futuro financeiro: “O Nafe me ajuda a planejar minha vida financeira, pois lá aprendemos como diversificar uma carteira [de investimentos], fazendo simulações precisas de como um rendimento fixo, como o Tesouro Selic, renderia ao longo dos anos. Eu protejo meu dinheiro com investimentos de renda fixa, enquanto crio um capital suficiente para diversificar minha carteira, mantendo também uma reserva de emergência”.

Embora as redes sociais sejam usadas pelas empresas para estimular o consumo, os professores articuladores do Nafe e do NAV ressaltam que esses e outros canais de comunicação também podem ser usados para a conscientização ambiental e financeira: “Os próprios estudantes dos núcleos produzem materiais educativos diversos nesse sentido, promovendo reflexões sobre temas contemporâneos. Essa estratégia amplia o alcance das iniciativas e favorece o engajamento da comunidade escolar, incluindo famílias e o entorno”, dizem.

Mestre em Gestão Educacional, a administradora de empresas Juliana Argollo considera essencial desenvolver no ambiente escolar o olhar crítico sobre esses temas. “Compreendo que a educação financeira contribui para que os estudantes façam escolhas mais conscientes e equilibradas, fortalecendo a autonomia, o planejamento e o uso responsável do dinheiro”, diz Juliana, que é diretora administrativa e financeira do Vieira. “Buscamos também integrar a reflexão sobre os impactos ambientais das escolhas de consumo. Assim, educar para as finanças e para o cuidado com a ‘Casa Comum’ é também formar cidadãos mais responsáveis, conscientes e comprometidos com o futuro”, conclui.

Fonte: Matéria publicada na edição de nº 17 da Revista Vieira+: https://www.colegioantoniovieira.com.br/lancada-edicao-2026-da-revista-vieira/#flipbook-df_128341/1/ 

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