Por Sérgio Silveira, diretor-geral do Colégio Antônio Vieira, em Salvador. Texto publicado na edição de nº 17 da Revista Vieira+.
Quem trabalha em escola percebe que aprender nunca foi apenas uma questão de conteúdo. Nos corredores, nas reuniões pedagógicas e, sobretudo, nas conversas com as famílias, surgem relatos cada vez mais frequentes de crianças e adolescentes cansados mentalmente, irritados, ansiosos, impacientes e com grande dificuldade de concentração.
Muitos pais afirmam não saber mais como lidar com filhos que parecem incapazes de permanecer atentos por alguns minutos, frustram-se facilmente diante de desafios simples e demonstram resistência a atividades que exigem esforço contínuo, como leitura, escrita e estudo. Grande parte dessas vivências dialoga com o contexto contemporâneo marcado pela hiperestimulação digital.
O consumo acelerado de vídeos curtos, notificações incessantes e recompensas imediatas nas redes sociais ativa continuamente mecanismos cerebrais ligados ao prazer instantâneo. Aos poucos, o cérebro acostuma-se à velocidade dos estímulos e passa a encontrar dificuldade em sustentar atenção em experiências mais lentas e profundas, como a leitura reflexiva, o estudo prolongado e até mesmo o convívio interpessoal.
Para quem vive o cotidiano escolar, torna-se evidente que os impactos não se limitam ao desempenho acadêmico. Eles alcançam a saúde emocional, as relações familiares e a capacidade de lidar com limites, frustrações e processos que exigem tempo.
CONEXÕES NEURONAIS EQUILIBRADAS
Nesse cenário, a neurociência educacional ajuda a compreender que essas dificuldades não podem ser vistas apenas como “falta de interesse” ou “desobediência”. O cérebro humano funciona a partir de conexões neuronais que são fortalecidas pelos estímulos recebidos ao longo da vida e aprende melhor quando encontra equilíbrio entre estímulo e descanso, tecnologia e convivência, informação e significado.
Hábitos como sono regulado, leitura frequente, interação social, atividades artísticas, prática de exercícios físicos e momentos de desaceleração contribuem diretamente para a neuroplasticidade cerebral, que é a capacidade que o cérebro possui de se reorganizar continuamente.
Talvez um dos maiores desafios da educação contemporânea seja justamente esse: ensinar conteúdo sem esquecer de ensinar modos saudáveis de existir em um mundo cada vez mais acelerado. Um cuidar que exige também humanidade para acolher sem julgar e apontar caminhos sem condenar.

