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Formação que inspira: Ana Flávia Bitencourt de Andrade

A formação em Engenharia abriu um caminho profissional para Ana Flávia Bitencourt de Andrade, mas foi a experiência com a espiritualidade inaciana que a levou a uma nova direção. Desde 2019, ela atua como orientadora de Formação Cristã no Colégio Loyola, em Belo Horizonte (MG), depois de uma caminhada marcada pela vivência eclesial, pelos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola e pelo trabalho voluntário com jovens no Espaço MAGIS-BH. “Sempre gosto de recordar que essa radical mudança na trajetória profissional foi também o fruto de uma eleição originária de uma experiência de Exercícios Espirituais que ainda ecoa em mim”, conta. 

No Colégio Loyola, o contato com a espiritualidade, a Pedagogia Inaciana e a educação da Companhia de Jesus se aprofundou e também deu origem à pesquisa desenvolvida na Especialização em Educação Jesuítica: Aprendizagem Integral, Sujeito e Contemporaneidade  da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). No trabalho Formação para a liderança inaciana: princípios, horizontes e perspectivas: percepções dos estudantes acerca da formação para a liderança inaciana, Ana Flávia investigou como estudantes que participaram dos Encontros de Formação Inaciana percebem esse modo de liderança e sua contribuição para a formação integral.  Confira a entrevista completa abaixo:

O que despertou seu interesse em pesquisar a formação para a liderança inaciana a partir das percepções dos próprios estudantes que participaram dos Encontros de Formação Inaciana?
Desde a minha chegada ao Colégio Loyola, tenho acompanhado e colaborado na condução de algumas práticas formativas, dentre elas, os Encontros de Formação Inaciana, oferecidos a grupos de estudantes do 6º Ano do Ensino Fundamental à 3ª Série do Ensino Médio e que enfatizam a formação para a liderança inaciana.

Fundamentando-se na vivência da espiritualidade inaciana e no fomento ao protagonismo, por meio de experiências que partem da vivência à reflexão, nessa prática, os participantes são convidados ao desenvolvimento e ao exercício de habilidades e competências inerentes à liderança inaciana, como, por exemplo, comunicação, abertura, autoconhecimento, superação de desafios, compromisso e serviço.

Em muitos momentos, pude presenciar o despertar do perfil de liderança de alguns estudantes e o fortalecimento de algumas habilidades que colaboram para o desenvolvimento da liderança inaciana. Ao refletir sobre essa prática, parecia-me que, muitas vezes, para os educadores, ficava evidente que as experiências oferecidas nos Encontros de Formação Inaciana contribuíam, significativamente, para a proposta de formação para a liderança inaciana, contudo, eu também considerava que seria importante compreender se os estudantes conseguiam identificar, nas atividades das quais participam, os princípios que fundamentam a liderança inaciana e analisar de que modo essas atividades têm contribuído para o desenvolvimento dessa liderança.

Sob a ótica dos educadores, aparecem com maior enfoque o planejamento e os objetivos previstos para cada prática pedagógica. No olhar e no coração dos estudantes, estão as experiências vividas, com todas as suas implicações. Considerando os estudantes como o centro do processo de aprendizagem, conforme o Projeto Educativo Comum da Rede Jesuíta de Educação, é essencial abrir espaços para que eles possam compartilhar suas percepções e sentimentos sobre as experiências vividas. Isso foi o que mobilizou o meu desejo de realizar a pesquisa a partir dessa abordagem.

Além disso, não posso deixar de mencionar que a colaboração nos Encontros de Formação Integral da Rede Jesuíta de Educação também foi determinante para que eu pesquisasse mais sobre a liderança inaciana, ajudando-me a ampliar os horizontes e a ressignificar algumas compreensões sobre essa temática.

Ao analisar os relatos dos estudantes, quais aspectos da liderança inaciana mais apareceram nas experiências compartilhadas por eles? Houve alguma percepção que surpreendeu você?
A abordagem escolhida para a pesquisa foi qualitativa e não quantitativa e, por esse motivo, desde o início, eu esperava que fosse evidenciado o caráter subjetivo com que cada estudante é tocado pelas práticas formativas e que talvez não aparecesse alguma tendência. Entretanto, algo que me surpreendeu muito positivamente foi que, em boa parte dos relatos analisados, o autoconhecimento apareceu como uma importante característica de liderança inaciana valorizada pelos estudantes.

A busca pelo autoconhecimento, ou seja, por uma compreensão aprofundada dos próprios desejos, motivações e até mesmo das limitações, pode trazer mais confiança à pessoa, o que pode contribuir para o melhor exercício da liderança. Daí a importância de fomentar tempos e espaços para que os estudantes possam realizar a autorreflexão e crescer em autoconhecimento. Conforme afirma Guibert (2017, p. 140), a partir do autoconhecimento, “a pessoa conhece a si mesma: tem vida interior, valoriza-se adequadamente, vive com confiança e busca dentro de si motivação para a tarefa de liderança”.

O que diferencia a liderança inaciana de outras formas de liderança? Como valores como serviço, discernimento e compromisso com os demais aparecem nessas percepções?
A liderança inaciana tem profunda relação com a espiritualidade inaciana e com o estilo de liderança de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, mas é, acima de tudo, cristocêntrica. Conforme aparece no documento Características da Educação da Companhia de Jesus (1989, p. 39), “A visão que Inácio tem do mundo está centrada na pessoa histórica de Jesus Cristo”. Assim, pode-se afirmar que Jesus Cristo é o paradigma de liderança e o modelo de pessoa humana, no sentido mais profundo dessa palavra, que nos inspira.

Essa raiz cristocêntrica é o que nos marca e diferencia. Considero que, mais que um conceito, a liderança inaciana é um estilo de vida que exige abertura para a experiência de Deus, sensibilidade e atenção à realidade, capacidade de animar e motivar os outros e um desejo contínuo de transformação, tendo em vista o bem comum, aquilo que é melhor para todos. A liderança inaciana não é individualista; ela sempre envolve o comprometimento com os demais. Ela pode ser caracterizada por um reconhecimento não só das próprias competências, mas também das competências alheias e, com isso, de modo apaixonado, inspirar os outros a colocá-las em prática para a transformação das realidades. 

Em suma, a liderança inaciana é comunitária, implica um descentramento, uma capacidade de sair de si, do seu próprio amor, querer e interesse (EE 189) e de ir ao encontro do outro, num exercício de sensibilidade e de abertura aos demais.

A pesquisa aponta para a importância de qualificar e ampliar as atividades de formação para a liderança inaciana. O que poderia tornar essas experiências ainda mais significativas para os jovens?
Os relatos analisados na pesquisa evidenciaram uma compreensão, por parte dos estudantes, de que a liderança inaciana não é algo inato, restrito a algumas pessoas, mas que pode ser desenvolvida. Na perspectiva inaciana, cada pessoa tem um potencial para a liderança.

Por isso, é importante que a escola fortaleça o protagonismo estudantil, ou seja, que ela possibilite que os estudantes sejam mais ativos nos processos de ensino e de aprendizagem. As representações de turma, os grêmios estudantis, os voluntariados educativos, as campanhas solidárias, as práticas de imersão sociocultural, de encontro com as fronteiras existenciais e outros projetos e experiências que proporcionam espaços de diálogo e o envolvimento dos estudantes na tomada de decisões podem fazer com que eles desenvolvam competências como a autonomia, a comunicação e a responsabilidade, essenciais ao exercício da liderança.

A partir da identidade cristã e inaciana, a oferta de experiências que potencializem a formação para a liderança inaciana pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de pessoas mais integradas, com um olhar mais sensível e atento às realidades, que reconhecem, em si mesmas e nos outros, habilidades e competências para transformar a sociedade. Comprometidos com a aprendizagem para toda a vida, diz-se, no documento Colégios Jesuítas: Uma Tradição Viva no Século XXI. Um exercício contínuo de discernimento (2019, p. 86), que “Nossos colégios devem oferecer oportunidades dentro e fora da sala de aula para que os estudantes vivenciem um mundo pelo qual possam se apaixonar”.

Concluo afirmando que, assim, apaixonados por esse mundo e movendo-se por valores éticos e espirituais como o amor, a gratidão, a honestidade e a tolerância, os estudantes podem utilizar os dons e talentos recebidos de Deus para exercer a liderança inaciana, responder às necessidades do tempo presente e colaborar com Ele na construção de um mundo mais justo, humano e fraterno.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

COMPANHIA DE JESUS. Características da Educação da Companhia de Jesus. Coleção Documenta SJ. São Paulo: Edições Loyola, 1989.

GUIBERT, José Maria. El liderazgo ignaciano: Una senda de transformación y sostenibilidad. Maliaño (Cantabria): Editorial Sal Terrae, 2017. 153 p.

ICAJE – COMISSÃO INTERNACIONAL PARA O APOSTOLADO DA EDUCAÇÃO DA COMPANHIA DE JESUS. Colégios jesuítas: uma tradição viva no século XXI: um exercício contínuo de discernimento. Roma: Secretaria para a Educação Secundária e Pré-Secundária da Companhia de Jesus, 2019.

LOYOLA, Inácio de. Exercícios espirituais. 8. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

PEC. Projeto Educativo comum da rede jesuíta de educação básica: 2021-2025. 1ed. São Paulo: Rede Jesuíta de Educação, 2021.

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